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Mostrando postagens com o rótulo saudade

João Antônio Garcia, JAG

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Há momentos em que a vida vem lembrar da outra vida que você já teve. Ou, pelo menos, eu fico com essa impressão. Semana passada o amigo Cláudio me passou a informação de que o amigo João Antônio havia sofrido um AVC e estava em condições muito difíceis, em uma UTI, em um hospital em Canoas. João Antônio… Conheci o João Antônio na minha adolescência, nos anos 1980. Mais exatamente, devo tê-lo conhecido em 1982 ou 1983. A adolescência costuma ser associada à rebeldia, mas, veja só, conheci João em meio a uma busca através da religião. Religiões institucionalizadas costumam ser coisas extremamente hierárquicas, por vezes, reacionárias; por outro lado, também costumam ser meios de submissão. Bem, a busca começou primeiro como católico. Depois em busca da “verdadeira” religião (desde que fosse cristã). Por fim, uma passagem à fé evangélica. Outros amigos estiveram envolvidos nisso. Além do Claudio, já citado, havia o Paulo, o Marco, o Carlos. Uma turma que vivia na Vila Cefer. E que gostav...

É 2026 e tem Copa do Mundo de novo, pai

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Pai, Estamos em 2026 e é Copa do Mundo de novo. Como aconteceu em 1966, em 1986 e em 2006. É, não teve Copa do Mundo em 1946. O mundo ainda ia se recuperando da Segunda Guerra Mundial. É Copa do Mundo de novo neste ano em que hipoteticamente farias 110 anos. Desde 1916. Sabes, pai, na semana passada eu disse que a Copa do Mundo ia começar e eu não sentia nada . Me sentia alheio. Mas desde que a bola começou a rolar, é praticamente impossível ficar alheio. Só se a pessoa se isolar em algum canto do mundo sem rádio, TV ou internet. Ou for totalmente indiferente ao futebol. Quem sabe? Apesar de tudo, pai. A Copa ocorre em três países, Canadá, Estados Unidos e México. A maioria das partidas ocorrerá nos Estados Unidos. E os Estados Unidos têm cometido todo tipo de arbitrariedade. Bombardearam o Irã, que está participando da Copa. Não permitiram que os jogadores do Irã ficassem hospedados em solo estadunidense. Barraram um árbitro somali. Interrogaram por horas um atleta iraquiano. ...

Canção para Hal

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Sou um fã da banda irlandesa U2 desde o álbum The Joshua Tree, lá por 1987, que talvez coincida com o tempo em que a banda se tornou uma “mega” banda, isto é, de sucesso estrondoso. Na época em que ainda se comprava álbuns em mídia física, adquiri The Joshua Tree, Achtung Baby, Zooropa, All That You Can’t Leave Behind e How to Dismantle an Atomic Bomb. Não são todos os álbuns entre 1987 e 2004, mas a maioria deles.  E então passei por uma fase de afastamento. Mais ou menos como acontece às vezes quando a gente, por um motivo ou outro, se afasta de um amigo.  Depois os serviços de áudio por demanda, também conhecidos como streaming, me deram a oportunidade de retomar, digamos, intimidade com as canções da banda. Pude escutar as canções de No Line On the Horizon, Songs of Innocence e Songs of Experience. E enquanto eu lia as memórias de Bono em Surrender , pude ouvir canções dos álbuns Boy ou War.  Enfim, só para dizer que sou um fã.  Depois do álbum Songs of Surrender...

Feliz 101 anos, mãe

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Feliz aniversário, mãe. Seriam 101 anos.  Sabes? Não estava pensando muito no teu aniversário até que percebi que esta terça-feira, seria 3 de fevereiro de 2026. Me senti atropelado pelo calendário. O dia em que publico minhas crônicas e reflexões iria cair exatamente no dia do teu nascimento.  Por esses dias pensei em falar sobre minha mais recente ida ao cinema. Fui ver um filme brasileiro, chamado O Agente Secreto. Atualmente estou indo ao cinema uma vez por ano. Muito embalado pela carreira internacional de filmes brasileiros. O filme anterior, em fevereiro de 2025, havia sido Ainda Estou Aqui . É curioso isso. Na juventude cheguei a ir a mais de uma sessão de cinema no mesmo dia, tendo de me deslocar de um cinema a outro, isto é, sem assistir aquelas matinês de dois filmes no mesmo prédio. Mas que dizer? Tu falavas dos filmes do Mazaropi que ias ver no cinema na tua juventude, e, que eu me lembre, nunca me levaste a uma sessão. Quem me iniciou no fascínio das telas grande...

Primeiro de dezembro de 2025

– De novo? – Pois é. Fiz de Novo. Que nem a Britney Spears. Vou continuar fazendo. É meu jeito de me expressar. – Semana passada foi sobre a mãe. – Sim. Dona Nadir. Faz umas duas ou três semanas que se completaram trinta anos que ela se foi. – E agora é o pai. – Sim. O Seu Oswaldo. Se estivesse entre nós, estaria completando 109 anos. – Pouca gente completa 109 anos. – De fato. A expectativa de vida para os homens no Brasil é de pouco mais de 70 anos. Justamente a idade com que ele se foi. 73 anos em 1990. Se bem que naquela época, faz 35 anos, a expectativa de vida masculina devia ser menor. – Mas por que mesmo essa fixação em falar de quem já se foi? – Não é bem uma fixação. Acontece que as datas se repetem ciclicamente. Anualmente. Sabe como é. A gente fica usando efemérides o tempo todo para escrever esse tipo de texto. Vou comentar sobre as efemérides que movem o comércio no final do ano: até umas décadas atrás o ano vinha vindo (o ano vir vindo é uma otima construção!) e quando c...

Efemérides de números redondos, mãe

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Oi, mãe. Escrevo em 24 de novembro de 2025. Semana passada comentei com o Emanuel e com a Linda que estavam se completando trinta anos da tua partida. Para citar o chavão, trinta anos de saudades. Trinta anos para eu exorcizar os meus rancores e cultivar as boas lembranças.  E é muito curioso, mãe, que nasceste em 1925 e morreste em 1995. Então nesse ano de 2025, farias 100 anos, se estivesses conosco.  Linda tem uma lembrança muito marcante de ti, da tua intervenção na época do nascimento do Emanuel em 1988. Linda pensa que ela e o Emanuel estão vivos também por causa da pressão que fizeste enquanto ela estava internada se recuperando do parto, e os médicos esperavam que o útero dela expelisse naturalmente a placenta, o que não acontecia.  Acho que a Linda se lembra de tua intervenção para que os médicos agissem para que o Emanuel nascesse. Eu me lembro da tua intervenção pressionando para que fosse feita rapidamente uma curetagem que estancasse a hemorragia a que a Lind...

Lô Borges (1952-2025)

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No início da década de 1980 entrei em contato com a obra de Milton Nascimento através de amigos. Naquela época, entre esses amigos, estava muito em voga o LP Sentinela. Também naquela época comecei a trabalhar e com a grana dos primeiros salários adquiri o álbum Clube da Esquina 2, então em formato de fita cassete, em um balaio de ofertas da Renner da Otávio Rocha. Foi um álbum de “uau!”. E Clube da Esquina não era só Milton Nascimento. Era Milton Nascimento, era Milton e mais uma turma a qual não prestei muita atenção, mas que estava lá. Ouvi muito aqueles cassetes, que não sei que fim levaram. Lembro muito de Canoa, Canoa, primeira canção do lado B do primeiro cassete.  Depois, não sei quanto tempo depois, adquiri o álbum Clube da Esquina, que, como a nomenclatura indica, precede Clube da Esquina 2. Foi outro “uau!”. E Clube da Esquina não era só Milton Nascimento. Era Milton Nascimento e Lô Borges e Beto Guedes e outros, sem contar o grande Fernando Brant, que usualmente compunh...

Outubro antigamente era assim

Antigamente outubro era assim. Antigamente era nos anos 1990.  Começava com o aniversário do Lucas, o filho de um casal de amigos nossos, no dia 5.  Dia 11 era o aniversário do Emanuel, meu filho. Que por uma bela coincidência nasceu no mesmo dia que o bisavô dele. Com 94 anos de diferença entre eles. Emanuel só sabe de seu bisavô por vagas memórias e umas poucas fotos.  Depois, dia 16, era o aniversário da minha cunhada Siloni. Melhor que chamar cunhada é o termo em inglês, sister-in-law, isto é, irmã na lei.  Dia 17 era o aniversário da Sula, a mãe do Lucas.  E dia 20 era o aniversário da Lúcia, a minha irmã. De sangue. Em grande parte também uma espécie de mãe.  Eu sempre pensei essa profusão de aniversários em outubro como um determinismo biológico. Esses primatas gerando suas crias para nascerem na primavera.  Também não descarto que haja uma confluência astral para que haja um monte de gente nascida sob o signo de libra.  Quando comentei ess...

Mais alguns de nossos mortos – setembro e outubro de 2025

Eu era criança na década de 1970 e tinha a percepção de meu pai em estado taciturno. Abatido.  Penso nos dias em que ele soube da morte de Lupicínio Rodrigues (1914-1974) e, tempos depois, de Orlando Silva (1915-1978). Dou-me conta agora que esses artistas nasceram pouco antes do meu pai. O velho é de 1916.  O que pensava o meu pai? Não sei. Agora posso ver o que sinto. Sempre me dá uma tristeza, pequena ou grande, quando algum grande artista ou alguma personalidade que marcou época se vai. Têm sido tantos. E parece que cada vez mais.  Robert Redford foi O Galã, se podemos simplificar muito. Parceiro de Paul Newman em Butch Cassidy & Sundance Kid; e de Dustin Hoffman em Todos os Homens do Presidente; filmes que, curiosamente, ou não vi ou não lembro se vi, o que dá no mesmo. Mas lembro que marcou minha adolescência um filme que ele dirigiu, Gente como a gente. Uma das primeiras vezes na minha vida em que eu havia lido o livro que deu origem ao filme. E, claro, o vi em...

Gatinho

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O gato era cinza. E branco. Mais cinza do que branco.  Era um filhote então. Um gatinho. Foi adotado por uma senhora no outono da vida.  Ou, talvez, no inverno da vida.  Para completar o clichê, talvez, uma solteirona que criava gatos. Só no outono de sua vida, aí sim, passou a acolher os felinos. O gato foi tomada por uma gata. Recebeu nome de personagem feminina da novela das oito. Nome esse já esquecido. Um exame mais detalhado constatou: não era uma gata. Um gatinho. Gatinho, o nome ficou. Gatinho, o nome, ficou. Um dia, a dona do Gatinho foi afligida por dores.  Dores no abdômen, dores nas costas. Consulta daqui, pesquisa dali, perscruta acolá, e chegou-se a um diagnóstico. O pâncreas tinha um tumor. E nove meses depois, um tumor no pâncreas levou a dona do Gatinho. Que foi herdado pela ex-cunhada da falecida dona. E foi bem tratado pela ex-cunhada da falecida dona. E ali até viveu bem. Uma vez fugiu. Mas voltou dois dias depois. Ali até viveu bem. Contudo houve...

LFV (1936-2025)

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Desde a madrugada de sábado, 30 de agosto, o Brasil ficou um pouco mais triste. Pelo menos para aquela parte que apreciava o humor discreto do escritor Luis Fernando Verissimo. Ele nos deixou naquela madrugada após um relativamente longo ciclo de problemas de saúde, especialmente uma pneumonia e um AVC acontecidos há alguns anos.  Filho de Erico Verissimo, que é talvez o maior escritor sul riograndense de todos os tempos, Luis Fernando se tornou um autor com estilo próprio, diferente do pai. Ambos populares, cada qual a seu modo.  Os obituários tendem a ressaltar um homem econômico ao falar, e essa parece que foi uma característica que Luis Fernando Verissimo fez questão de cultivar.  E as memórias e recordações de amigos e colegas partem dos inícios da carreira. Ele foi colega de redação de muita gente. E trabalhou incansavelmente nessas redações.  Meu período de maior leitor de LFV é dos tempos em que eu costumava ler o jornal Zero Hora impresso. Tempos pré-interne...

Preta Gil, Mário Pirata, Ozzy Osbourne: a vida é sopro

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De fato eu conheço pouco da obra Preta Gil. Tudo que eu sabia era que ela era uma das filhas de Gilberto Gil, e uma figura midiática. Era fácil ver participações dela em programas de variedades televisivos e na internet. Ultimamente tivemos a notícia do desenvolvimento de um câncer de intestino e sua luta contra a doença aconteceu em praça pública.  Apesar de eu viver em Porto Alegre, conheço ainda menos a respeito de Mário Pirata. Mário Augusto Franco de Oliveira, o Mário Pirata, era um poeta e um ativista cultural, com atuação importante na cidade desde os anos 1980.  Ozzy Osbourne é mundialmente conhecido. Primeiro como membro da banda Black Sabbath, depois como cantor solo. Na maturidade chegou a participar de um reality show televisivo mostrando a sua vida.  Estas três pessoas nos deixaram nos últimos dias. Preta Gil e Mário Pirata no domingo, 20 de julho. Ozzy Osbourne na terça, 22. Em poucos dias dezenas, milhares, milhões de fãs ficaram desamparados. Seus ídolos s...

Jussara Fösch e o paradoxo da rede social

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Esta semana a rede social do livro dos rostos me lembrou do aniversário de Jussara Fösch.  De fato, seriam 59 anos no dia em que escrevo (30 de março).  Recebi o lembrete, e escrevi no perfil dela nessa rede – congelado como um memorial –, expressando minha saudade por uma pessoa que partiu muito mais cedo do que nós esperávamos, ou, pelo menos, que eu esperava.  Afinal era relativamente jovem – mais jovem que a idade média projetada para as mulheres brasileiras –; tinha acesso à medicina preventiva, apesar das condições que vêm com o tempo, a exemplo da hipertensão; não era sedentária.  São as coisas que não se explicam.  Uma mui sumária cronologia, que nesse caso relaciono a mim, diria que os últimos dias de Jussara em 2024 foram seu aniversário, em 30 de março, quando completou 58 anos; a presença com que ela me felicitou no lançamento do meu livro Confinado, um diário da peste, no dia 5 de abril; a notícia que ela teve um mal súbito e foi internada em uma UT...

A morte de Suria e as mortes de Maria Lúcia Rodrigues

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Na madrugada do domingo, 22 de dezembro de 2024, morreu a Suria. Suria era uma gatinha pequeninha, miudinha e muito bonitinha. Não sei exatamente há quantos anos ela vivia, não temos um documento atestando datas a respeito dela, mas certamente deveria ter mais quinze anos. Suria pertencia à minha irmã, Maria Lúcia. Quando minha irmã faleceu, nos idos de 22 de janeiro de 2018, Suria ficou como uma espécie de herança. Desde a metade de 2018, mais ou menos, quem cuidava dela era a Linda.  Dia 19 de dezembro passado Suria foi levada a uma clínica veterinária. Não estava se alimentando direito, não excretava e tinha dificuldades para andar. Terminou internada por dois dias na tal clínica. Recebeu a alta no sábado. Recebeu cuidados intensos da Linda.  Foi Linda que me narrou que na madrugada de sábado para domingo Suria parecia fraca. Também parecia inquieta. Teve momentos de tentar fugir e momentos de tentar se esconder. Foi pega no colo. E no colo deu seu último suspiro. Talvez te...

16 de outubro de 2024

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E a primavera sempre retorna. E então é outubro outra vez. E então o dia 16 chega e se mostra a você. E você se assusta.  É 16 de outubro de 2024. É aniversário da Siloni. Seriam os primeiros sessenta anos neste ano. Siloni não está mais entre nós, exceto, talvez em alguns de nossos corações.  O estranho foi a sensação de surpresa. De olhar para alguma tela, possivelmente algum celular, e lá estar a data: 16 de outubro.  Talvez eu devesse apenas publicar por mais um ano o texto Outubro antigamente era assim , mas não dessa vez.  Os sessenta anos de Siloni chegaram sem que eu percebesse. Pegaram-me de surpresa. E sessenta anos são, talvez, um sinal de plenitude. Pelo menos, talvez, segundo o horóscopo chinês. Segundo essa tradição, aos sessenta anos a pessoa já viveu o suficiente para passar pelos doze signos e pelos cinco elementos. Eu já falei sobre isso em um texto em que, de alguma maneira, felicitava alguém por completar… 61 anos! E como a Esfera Azul não para, s...

Um substituto chinês

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Pai, No próximo domingo, 11 de agosto de 2024, será dia dos pais. É um momento para pensar em ti.  Sim, sou pai. Sim tive um “pai na lei” como dizem os anglófonos, isto é, meu sogro. E tive esse privilégio de ter tido um pai que me acompanhou até o fim de sua vida. De fato, foi por pouco tempo. Dos cerca de 23 anos em que estivemos juntos sobre esse planeta, os meus primeiros cinco, são de não lembranças. Dos seis aos doze, são as lembranças esparsas de ti indo dormir muito cedo, e depois acordando muito cedo. Ias dormir antes de mim, e levantavas para trabalhar antes que eu me acordasse.  Então, entre os meus doze e quatorze anos parece que foi o período em que acompanhei mais teus gestos com os relógios. Aqueles que relatei no outro texto . O ato de dar corda no relógio Technos todas as noites. Eventualmente nos meses com menos de 31 dias, ter que girar os ponteiros do relógio para ajustar o dia (o velho Technos não tem ajuste apenas para o calendário). O ato de dar corda no...

Jussara Fösch partiu em 16 de abril de 2024

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Viver traz perdas. Quanto mais vivemos, mais perdas vamos tendo. É um clichê, é um truísmo. Até que nós mesmos chegamos ao fim. Tenho inventariado as pessoas que partem. Deixam-me . Há pouco mais de um ano, se foi a Barbara Sanco . Há poucos dias, se foi Jussara Fösch.  Trabalhamos na mesma área em processamento de dados por mais de vinte anos. Nos últimos dez ou doze anos de trabalho, ficávamos praticamente um de frente para o outro. Muito chimarrão ela me ofereceu antes da pandemia condenar as cuias compartilhadas. Era uma convivência em geral boa. Tivemos nossos atritos, mas mais nos ajudávamos que brigávamos. De fato, essa é uma das principais lembranças, a colaboração nos projetos que precisávamos desenvolver.  E conversas. Muitas conversas. Entre colegas sempre se conversa sobre salários, sobre o sistema de promoções da empresa, sobre apadrinhamentos (ou não). Sobre outros colegas (ou não). Em todo grupo social há o ditado que, se você não comparece a uma reunião, pode s...

Refletindo sobre algumas figuras públicas que nos deixaram no primeiro quadrimestre de 2024

Os sete ou oito leitores que acompanham o que escrevo sabem que tenho certa fixação sobre pessoas com alguma influência, pessoas públicas em algum sentido, e que partiram. Como alguém já brincou, sou aquele que lê obituários, e, mais que isso, escreve obituários para pessoas queridas que nos deixam. Neste ano de 2024, em que abril vai terminando, mais algumas pessoas que de alguma maneira me marcaram morreram. Comento sobre elas a seguir. Samuel Pinheiro Guimarães foi diplomata . Era um homem nacionalista e patriota. Por conta disso foi associado a esquerdismo e socialismo, e ainda por conta disso, meio que ficou na geladeira do Ministério das Relações Exteriores no governo FHC. Como era um intelectual combativo, escrevia artigos criticando o que via de errado na diplomacia brasileira e nas relações políticas mundiais. Tinha 84 anos. Faleceu no final de janeiro.  Wilson Fittipaldi  talvez seja mais conhecido como o irmão do Emerson, Emerson que foi o primeiro piloto brasileiro...

Mãe, faz um ano que estou aposentado

Mãe, Faz um ano que estou aposentado. De fato na data em que escrevo, faz um ano e um dia.  Tudo passou muito rápido, mãe. Como rápida parece a vida quando olhamos para trás.  1980. No final daquele ano a Lúcia informou que havia uma vaga para office-boy na empresa em que ela trabalhava. Sim, houve nepotismo. Eu tinha quatorze anos. Meu primeiro contrato de trabalho foi assinado em janeiro de 1981. 1981. Aquele seria o ano em que o pai se aposentaria e eu começaria a trabalhar. Office-boy, como já disse.  E a frase que ficou na minha cabeça foi o teu comentário, ou recomendação, que, começando cedo assim, antes dos cinquenta anos eu poderia ter uma aposentadoria e garantir um salário mínimo por mês. Era algo significativo porque o pai sempre teve contratos precários, mesmo sendo um bom profissional pedreiro. Havia aquelas histórias que contavas, que na primeira metade do século XX, quando houve as primeiras leis concedendo férias ao trabalhador que trabalhasse por um ano ...

A estranha situação de estar enviando uma mensagem ao meu pai morto sobre um velho relógio às vésperas do Carnaval de 2024

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Pai, Fiquei pensando em ti esta semana. Uma reflexão da semana passada  relembrou que neste dia 4 de fevereiro se completaram 34 anos da tua morte. Uma morte que senti muito, muito.  Estou escrevendo numa quarta-feira. No sábado será Carnaval. Possivelmente eu publique esse texto na Terça-Feira Gorda.  Não herdei muita coisa. Um pijama. Um roupão. Um par de sapatos. Tem um colega de trabalho que ficou com esse item de herança fixado na cabeça dele. Ele achou surpreendente que eu pudesse herdar um par de sapatos do meu pai.  Um relógio.  Esta semana usei este relógio. Aquele mesmo relógio comprado provavelmente em 1965. Teria sido na antiga Casa Masson? Um relógio que, para ti, era tão caro à época, que precisaste do apoio do salário de minha irmã para, como se dizia, abrir um crediário, e poder comprar esse relógio em não sei quantas vezes. Um dos relógios que sempre davas corda antes de deitar para dormir (o outro era o despertador que, às vésperas de conseguir...