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Mostrando postagens com o rótulo ficção

Sobre celebrar São Patrício em 2026

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João já era oficialmente um idoso. Tinha chegado à tal provecta idade há não muito tempo.  Sobre ser idoso, pensa rasamente. Ser idoso é ter lembranças de muitas coisas. Ser idoso é ter de lidar com as crescentes limitações do corpo. Ou talvez pensasse em algo mais profundo. Ser idoso é fazer analogias entre o que ele lembrava que vivera e o que as pessoas que eram idosas quando João era jovem diziam e lembravam. E também fazer analogias sobre o que ele lembrava vivera e o que lera nos livros de História. Se é que isso é pensar mais profundo.  Nesse ano de 2026 João refletia se ele agora se sentia em um mundo como aquele em que as pessoas haviam vivido nos tempos sombrios dos anos 1930.  E João pensava que sim e não. Se a figura de Adolf Hitler era assustadora já em 1938, o ex-cabo austríaco não tinha capacidade de lançar bombardeios em qualquer parte do mundo, assassinar ou sequestrar lideranças de nações com a facilidade com que o autocrata do norte faz hoje.  João...

Pequena Mona Lisa

O que há em um sorriso? O que há em um sorriso como o da Mona Lisa?  Há pouco estive em uma festa de debutantes. Não. Uma festa de debutante. Apenas uma moça debutava. Embora ali também houvesse umas tantas outras meninas, colegas daquela que naquela noite celebrava seu aniversário em grande estilo. Grande estilo ao menos para os convidados ali presentes.  De onde eu estava, e de onde eu podia ver, a debutante apenas sorria. Um sorriso como o da Mona Lisa. Contido. Discreto. Aparentemente feliz. Ali estava ela. Em seu vestido de princesa. Em uma festa de princesa. Em grande estilo. Ao menos para os convidados ali presentes. A entrada no salão, acompanhada pelos pais, em música de pompa. Era seguida pela fotógrafa e pelo cinegrafista oficiais do evento. Seguida pelas inúmeras lentes dos convidados a registrar os momentos.  Danças. Dança com o pai. Com o avô. Com o padrinho. Com um amigo (namorado?). Não lembro se valsava. Mas como valsa me soava. Faz-me recordar. Recordar ...

Aqui no Sul

Eu nunca saí daqui. No máximo um trem para o Cassino. Nem pra Pelotas eu fui.  É a minha vida aqui. Morar na Cidade Nova. Trabalhar quando dá. Pedreiro. Servente. Um bico aqui, outro lá.  Fim de semana um futebolzinho na várzea. Eu até que não sou ruim de bola. Centre-forward pela direita. Sempre que dava eu chutava. Às vezes dava gol. Às vezes eu deixava o cara na cara do gol, era só fazer. Era bom. Era divertido. Depois descansar, tomando uma cachaça no bar do português. Quando tinha uns trocados a mais, o que era difícil, a gente tomava cerveja. O português colocou um rádio no bar. Aí a gente ouve música e notícia. Atire a primeira pedra do Orlando Silva. Eu gosto dessa. E as notícias da guerra. Nunca soube de ataque por aqui, mas toda noite tem black-out. Será que algum dia eu vou poder comprar um rádio? Tudo aqui na Cidade Nova, à beira da Lagoa. A gente diz que é lagoa, mas sempre o mar entra e a água fica salgada. É por aqui que o pessoal pesca camarão.  Vivo numa ...

Feliz aniversário

– Anteontem foi aniversário da Leila. – E?… – Mandei uma mensagem para ela desejando feliz aniversário. – E?… – Achei que era a coisa certa a fazer. – Por que tu diz isso? Ou melhor, por que tu está trazendo isso? – Ela não respondeu. Eu nunca sei direito o que fazer. O aniversário dela é sempre uma data complicada. Sempre tem sido, desde que nos separamos. – E vocês se separaram já se vão uns bons anos, não? – Sim. – E qual o problema então? – O problema é que nesse tipo de data, cada vez que penso em me dirigir a ela, me sinto culpado. Afinal eu causei a separação, eu traí. – Uma coisa que repetimos aqui é que uma relação a dois é uma relação a dois, e quando ela termina, não é por culpa de apenas uma pessoa. Eu já falei aqui, pelo que temos conversado, que tu não estavas feliz na relação e procuraste um meio de sair dela. – Sim. Tu já disse. É algo que constantemente eu trago de novo e de novo para as sessões. E acho que sempre vou trazer. Nessas datas sempre fico achando que arruin...

A Stalinista

Meu amigo me contou que esse incidente aconteceu com ele.  Participava de uma oficina literária que acontecia à noite, em um reservado de uma livraria-café. A técnica da noite era crônica.  O orientador da oficina já havia passado informações básicas sobre uso da crônica. Tamanho, a questão da coloquialidade no texto. Enfim, as tecnicalidades.  Meu amigo disse que tudo transcorria bem até o momento em que a oficineira que ele chamou de A Stalinista lesse sua crônica. Não a havia apelidado de Stalinista porque ela realmente venerasse Stálin. De fato ele não sabia a opinião dela a respeito do líder da antiga União Soviética. O apelido foi por conta da postura dogmática da pessoa. Comenta que poderia chamá-la de inquisidora, mas como Deus estava um tanto quanto de lado na sociedade atual, talvez uma dogmática sem metafísica se apresentasse melhor.  A crônica versava sobre a perda de uma poeta palestina morta em um bombardeio israelense na mais recente guerra por aquelas...

Esta semana eu não vou poder visitar a minha tia

Esta semana eu não vou poder visitar a minha tia.  Sabe como é, ela é a favor do presidente da república. E domingo passado, o ex-deputado Bob Jeff resolveu receber a balas os agentes da Polícia Federal enviados para detê-lo (a acusação é que ele teria violado as condições do regime de prisão domiciliar que ele cumpria. Pelo que pude entender, uma das condições impostas para a prisão domiciliar era que ele não usasse redes sociais na internet. Ele usou para chamar uma juíza de “prostituta arrombada”).  Minha tia nem é tão mais velha que eu. Ela é temporã. Nossa diferença é só de treze anos.  Ela era tri minha amiga. Eu era bem moleca, e ela, em geral, brincava comigo e me apoiava até o fim da adolescência dela.  Depois ela começou a trabalhar, e depois eu é que me tornei uma adolescente meio rebelde.  Quando eu me tornei adulta, casei, tive filho, descasei, nós meio que voltamos às boas. Trocando mensagens. Se encontrando uma ou duas vezes por mês para tomar um ...

As crônicas faltantes

A mensagem chegou pelo aplicativo de mensagens. “Cara, isso está passando dos limites.” Maria demorou para olhar o aplicativo, depois do som da notificação.  “Parece que o Pedroso está te atrapalhando demais.” A segunda notificação também não chamou a atenção de Maria.  “Tô pensando em chamar o Altino e o Gian e confrontarmos o Pedroso.” “O que tu acha?” “Diz alguma coisa!” Essa veio junto com um emoji de expressão de raiva.  Depois da sequência de notificações, Maria finalmente resolveu olhar o celular.  Fez uma expressão alarmada. “Já faz duas semanas que não escreves nada no teu blog.” “O que tu acha da minha ideia de convocar os caras e encarar o Pedroso? Digo, baixar porrada mesmo?” Maria enviou um emoji com cara de espanto.  De fato, Maria costumava publicar suas crônicas semanalmente. Mas nas últimas duas semanas não publicou nada. De brincadeira, atribuía a falta das publicações ao Pedroso, sua identidade civil.  “O Zé enlouqueceu ou está brincando?...

Reflexões de um velho ranzinza – Pescoço

Com 61 anos, e aguardando a aposentadoria, a vida não tem sido fácil.  Naquela sexta, quando cheguei no bar, meu sobrinho já estava lá. Tomando aquela cerveja da garrafinha verde.  – E aí, tio? Tudo bem? – Tudo. E contigo? – Tudo bem. Tu sabe o que significa “long neck”?  – Não tenho certeza…. – Pescoço comprido. Pra ficar mais parecido a gente pode dizer pescoço longo.  – E daí? – Eu tava aqui bebendo a minha cerveja e imaginando…. – O quê? – Tu sabe que lá nos Estados Unidos eles têm um mercado mais desenvolvido, com mais variedade….  – Sim?... – Então! Será que lá eles tem garrafas “short neck”, ou seja, pescoço curto? Me senti meio confuso, e dei um sorriso. Mas achei sem graça. 21/07/2022 

Sobre o inferno – 3

Na mais recente vez que vi o fauno, ele não estava sobre montes ou colinas, querendo pregar a multidões, ou a públicos de qualquer tamanho. Estava em um bar, bebendo com um amigo.  Bebeu um gole de cerveja de um copo que ia pela metade.  Pude ouvir quando falou ao amigo.  – Eu vivo falando que o inferno é como um lugar onde as coisas caem no chão e tenho de juntá-las.  – Mudou de ideia? -- Perguntou o amigo.   – Não. Semana passada virei uma garrafa destampada de óleo de soja no chão da cozinha.  – E?  – Situação ainda mais infernal!  04/07/2022.

Reflexões de um velho ranzinza – Contestação de compra

Com 61 anos, e aguardando a aposentadoria, a vida não tem sido fácil.  Hoje de noite tive que ligar para o banco para questionar uma compra no meu cartão de crédito. Eu só fiz uma compra no supermercado, mas aparecem duas compras. Acho que em algum momento, em algum local, no supermercado do shopping, aproximou alguma maquininha e me lesou por aproximação. Eu fiz compras numa farmácia, e no supermercado.  Depois de dez idas e vindas, nas opções das respostas automáticas, finalmente uma pessoa vai falar comigo. Claro que antes de começar, ela pergunta meu CPF, minha data de nascimento e o nome da minha mãe. CPF que eu já tinha digitado.  – Boa noite, Sr. Antonio. Esta chamada gerou um protocolo, o 202201029385. O senhor quer anotar?  – Vocês podem me mandar um torpedo ou um email?  – Sim, podemos. Deve acontecer ao final da ligação. Em que posso lhe ajudar?  – Eu queria reclamar de uma compra que eu não reconheço no supermercado.   – Pois não. O se...

Reflexões de um velho ranzinza – Fiat Palio

Com 61 anos, e aguardando a aposentadoria, a vida não tem sido fácil.  No início da noite passada, eu estava voltando pra casa no busão.  Numa sinaleira, um palio velho vermelho, com pintura queimada, tinha um adesivo no para-choque: "Não me inveje. Trabalhe." Um palio velho não muito melhor que o meu.  Como diz uma conhecida minha, autoestima é tudo. 15/05/2022 

Reflexões de um velho ranzinza – Malefícios do consumo de cervejas

Com 61 anos, e aguardando a aposentadoria, a vida não tem sido fácil.  Noite passada eu estava tomando umas cervejas.  Eu devia estar na quarta garrafa. A tampinha caiu no chão. Não sei porquê quando eu abri, pelo jeito, a garrafa estava sob pressão. Começou a sair espuma como se eu tivesse abrido uma champanhe sacudida. Fiquei transtornado, gritando palavrão sozinho.  Pior. Quando fui juntar a tampinha, dei um mal jeito na coluna.  25/05/2022 

Reflexões de um velho ranzinza – Resta um

Com 61 anos, e aguardando a aposentadoria, a vida não tem sido fácil.  Quando eu estava no primeiro grau, de fato no primário, eu tinha um colega chamado Marcelo.  Uma vez ele me convidou para ir na casa dele. Talvez tenha sido mais de uma, mas essa eu acho que me lembro melhor. Ele tinha um joguinho chamado de Resta Um. Eu não conhecia. Era um tabuleiro quadrado azul, com um monte de pecinhas brancas. A gente ia fazendo uma pular por cima da outra, mais ou menos como no jogo de damas. Aquela que foi pulada saía. Até que só sobrasse uma peça. A topizera, como a gurizada fala hoje, era deixar a peça que sobrava no centro do tabuleiro. Um brinquedo para se brincar sozinho.  Às vezes eu fico olhando para as cartelas dos comprimidos que eu tomo, e me lembrando daquele joguinho. “Uso contínuo” o doutor escreve na receita. Vou tomando. Tem um momento que resta um. Depois nenhum.  Quanto tempo me resta? 25/05/2022 

Inquietação sobre o fim

Inquieto sobre o fim da novela que estava escrevendo, o obscuro escritor pensou muito. Foi ao final do arquivo do futuro livro e escreveu: "FIM". Olhou. Continuou pensando.  Não se sentiu satisfeito.  19/05/2022.

Reflexões de um velho ranzinza - Mijar

Sou um velho com 61 anos, que aguarda ansiosamente a aposentadoria. São mais de 45 anos entre desemprego e empregos mal pagos. 45 anos para conseguir um apartamento apertado em um prédio ruim na periferia, uma lata velha do século passado como "carro", e perspectiva nenhuma de bem-estar na tal aposentadoria. Mijar. Ou urinar como diz quem quer ser menos bagaceiro.  Acho que não tenho nenhum problema sério de próstata. Com a minha idade, eu ainda mijo forte.  Coisas de louco da vida. Eu mijo sentado no vaso. Começou quando eu estava com uma mulher. E agora mesmo sozinho eu ainda faço isso. Acho que suja menos, porque quando a gente mija de pé espalha respingo pra tudo que é lado. Assim fica menos sujo.  Num final de tarde, no bar, quando falei isso pro meu sobrinho ele riu. Me chamou de bicha, de metrossexual. Até de esquerdista. Eu ri junto e dei de ombros.  Acho que com a minha idade e sem grandes dificuldades de mijar, eu deveria estar contente. Fico chateado, e ac...

A Cafeteira

– Oi! Tu tem uma cafeteira para me dar? Era Linus me chamando pelo aplicativo de mensagens.  – Não. Só tenho a minha. – Respondi. – Ah tá! Mas eu tinha de perguntar. Depois de emprego de carteira assinada e do trabalho de motorista de aplicativo (Tem aplicativo para tudo hoje!), ele resolveu se estabelecer como “microempreendedor individual”, fazendo todo tipo de pequeno trabalho passível de ser feito em um escritório com computador e internet. Faz uns dois anos que somos um rolo um do outro.  Depois dessa pequena comunicação, encerrei meu turno de trabalho e fui almoçar.  Após o almoço, fui passar um café. Coloquei pó e água na máquina e voltei aos meus afazeres.  Uns minutos depois senti um cheiro de fio queimado.  Fui à cozinha e a cafeteira estava em aparente curto. O plugue derretendo na tomada. Desliguei o disjuntor. Minha cafeteira foi para o beleléu.  Resolvi enviar uma mensagem a Linus.  – Tá bom! Eu te compro uma cafeteira! Que olho o teu, he...

Cancelado

Durante a despedida de solteiro, o noivo teve um infarto. Fulminante.  28/04/2022.

Sem proteção

Assustado com a violência, e com medo de ter o celular com aplicativos de banco roubado, João comprou um aparelho usado e outro chip. Um sábado foi ao parque. Passou a tarde lá.  Voltou ao pôr do sol. Encontrou viaturas da polícia e movimento no prédio.  Perguntou aos policiais o que aconteceu. O policial respondeu que arrombadores conseguiram entrar no condomínio e invadiram e saquearam alguns apartamentos. Segundo o policial, os ladrões teriam entrado em imóveis vazios no momento da ação. João se apressou ao seu apartamento.  Chegando lá percebeu que a porta não estava trancada.  Além de muita coisa fora do lugar, deu pela falta do laptop. E do celular que ficara em casa.   22/04/2022.

Tecnologia de dormir

Pouco antes das onze da noite, ela colocou a tocar no celular, sons de chuva para relaxar. Deitou e pouco depois adormeceu. Acordou pela manhã, com o som da chuva batendo em sua janela.  13/04/2022. 

Desmascarado

Até quando dura a peste? Numa noite assombrada destas, sonhei com pessoas sem máscara pelas ruas e pelos xópings.  Acordei pensando naquilo. Preocupado.  Quando passou o perigo? Até quando dura a peste? Duas semanas depois visitei um xóping na zona sul da cidade.  A maioria das pessoas andava com o rosto descoberto.  Os amigos que me acompanhavam se constrangeram (ou se sentiram liberados?) com as máscaras e também as guardaram.  Me intimaram a fazer o mesmo.  Contrafeito, temeroso, tirei a de pano.  03/04/2022.