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Auto-Escritor

"Amanhã tenho que passar na editora". São mais ou menos essas as palavras de Paulo, personagem de Carlos Heitor Cony, no livro "Pessach, A Travessia". Um escritor tendo um escritor como personagem é quase metalinguagem.  Mas frase veio recorrentemente à minha mente neste final de 2018.  Um motivo era que a Editora Metamorfose me pediu para retirar os volumes a que teria direito, por conta da antologia "Palavras de Quinta", publicada num sistema de compartilhamento de custos.  Quase simultaneamente, tinham acabado os volumes que eu tinha comigo, de outra antologia em que participei, a "Santa Sede 7, Crônicas de Botequim" (2016) , e entrei em contato com a Editora Buqui, para adquirir mais, já que os autores participantes da antologia podem comprá-los com um bom desconto.  E, de repente, no meio dessas necessidades, acabei realmente por me sentir um escritor. Alguém que já teve textos publicados em livro. Foram três antologias até agora. A

Jussara Fösch partiu em 16 de abril de 2024

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Viver traz perdas. Quanto mais vivemos, mais perdas vamos tendo. É um clichê, é um truísmo. Até que nós mesmos chegamos ao fim. Tenho inventariado as pessoas que partem. Deixam-me . Há pouco mais de um ano, se foi a Barbara Sanco . Há poucos dias, se foi Jussara Fösch.  Trabalhamos na mesma área em processamento de dados por mais de vinte anos. Nos últimos dez ou doze anos de trabalho, ficávamos praticamente um de frente para o outro. Muito chimarrão ela me ofereceu antes da pandemia condenar as cuias compartilhadas. Era uma convivência em geral boa. Tivemos nossos atritos, mas mais nos ajudávamos que brigávamos. De fato, essa é uma das principais lembranças, a colaboração nos projetos que precisávamos desenvolver.  E conversas. Muitas conversas. Entre colegas sempre se conversa sobre salários, sobre o sistema de promoções da empresa, sobre apadrinhamentos (ou não). Sobre outros colegas (ou não). Em todo grupo social há o ditado que, se você não comparece a uma reunião, pode se tornar

Cara doutora, eis meu momento com o diabetes

Cara doutora, Pensando que os maus números a respeito da minha glicemia que haviam se apresentado no final de 2023 se repetiriam neste início de 2024, comecei a tentar me preparar para, talvez, o pior.  O pior, na minha cabeça, talvez fosse começar a ter que me injetar insulina.  Primeiro caí no conto do smartwatch que podia medir a glicemia do sangue. Consultei a internet, em especial uma dessas novas inteligências artificiais generativas, e ela me afirmou que tais dispositivos poderiam funcionar para essa medição, com seus escâneres de luz, nas veias do pulso. Comprei o relógio esperto. Na primeira medição que fiz com ele, recebi uma medição de uns 120 mg/dL, ou seja, glicemia de uma pessoa saudável. Ah sim, o relógio mede a glicemia em milimol por litro, então tive que fazer conversões. Medi mais algumas vezes, e as marcações eram semelhantes, sempre ao redor de 120 mg/dL. Fiquei desconfiado, e resolvi fazer uma medição com o glicosímetro. Como eu esperava, o glicosímetro encontrou

Refletindo sobre algumas figuras públicas que nos deixaram no primeiro quadrimestre de 2024

Os sete ou oito leitores que acompanham o que escrevo sabem que tenho certa fixação sobre pessoas com alguma influência, pessoas públicas em algum sentido, e que partiram. Como alguém já brincou, sou aquele que lê obituários, e, mais que isso, escreve obituários para pessoas queridas que nos deixam. Neste ano de 2024, em que abril vai terminando, mais algumas pessoas que de alguma maneira me marcaram morreram. Comento sobre elas a seguir. Samuel Pinheiro Guimarães foi diplomata . Era um homem nacionalista e patriota. Por conta disso foi associado a esquerdismo e socialismo, e ainda por conta disso, meio que ficou na geladeira do Ministério das Relações Exteriores no governo FHC. Como era um intelectual combativo, escrevia artigos criticando o que via de errado na diplomacia brasileira e nas relações políticas mundiais. Tinha 84 anos. Faleceu no final de janeiro.  Wilson Fittipaldi  talvez seja mais conhecido como o irmão do Emerson, Emerson que foi o primeiro piloto brasileiro campeão

Um sobrenome Ginzburg

Na primeira década deste século XXI eu cursava História na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Naquela época, durante a graduação, uma das primeiras atividades extracurriculares de que participei foi um simpósio de História Medieval, cuja grande estrela seria o historiador italiano Carlo Ginzburg.  Carlo Ginzburg era relativamente conhecido no Brasil, pois alguns de seus livros foram publicados por aqui. O livro mais famoso se chamava O Queijo e os Vermes, em que o autor faz uma pesquisa sobre um moleiro que tinha ideias consideradas heréticas pela Igreja Católica, e por esse motivo foi perseguido. Ginzburg fez sua análise justamente a partir dos arquivos da Inquisição. Seus estudos acabaram gerando um ramo da historiografia chamado Micro-história, em que o historiador se debruça sobre um período de tempo e um espaço geográfico muito restrito. No caso em questão, o estudo era sobre o comportamento da Inquisição, em meados do século XVI, ne região do Friuli, na Península Itálica

Mãe, faz um ano que estou aposentado

Mãe, Faz um ano que estou aposentado. De fato na data em que escrevo, faz um ano e um dia.  Tudo passou muito rápido, mãe. Como rápida parece a vida quando olhamos para trás.  1980. No final daquele ano a Lúcia informou que havia uma vaga para office-boy na empresa em que ela trabalhava. Sim, houve nepotismo. Eu tinha quatorze anos. Meu primeiro contrato de trabalho foi assinado em janeiro de 1981. 1981. Aquele seria o ano em que o pai se aposentaria e eu começaria a trabalhar. Office-boy, como já disse.  E a frase que ficou na minha cabeça foi o teu comentário, ou recomendação, que, começando cedo assim, antes dos cinquenta anos eu poderia ter uma aposentadoria e garantir um salário mínimo por mês. Era algo significativo porque o pai sempre teve contratos precários, mesmo sendo um bom profissional pedreiro. Havia aquelas histórias que contavas, que na primeira metade do século XX, quando houve as primeiras leis concedendo férias ao trabalhador que trabalhasse por um ano inteiro, os pa

Cara Maria – XVI – Um tour por alguns escritores de Porto Alegre

Cara Maria, Viajei em teu texto sobre Porto Alegre . Pensei em te copiar, mais ou menos como fiz quando escreveste sobre a Rua Duque de Caxias, mas depois desisti. Pensar que esses textos da Duque, o teu  e o meu , já têm mais de dois anos... Nunca morei no centro da cidade, mas trabalhei ali por 42 anos. Na minha infância o centro era uma espécie de jornada mágica, uma viagem para onde minha mãe me levava, acompanhando-a a resolver algum problema, em geral alguma conta a pagar, ou algum artigo a comprar. Às vezes consultas médicas ou dentárias, dela e minhas. Quando comecei a trabalhar, o centro se tornou uma espécie de território meu. Ainda mais que nos meus primeiros quatro empregos minhas atividades eram total ou parcialmente as atividades de um office-boy, caminhando pelas ruas centrais, para lá e para cá.  Mas como eu te disse, desisti de desenvolver essas ideais.  Mais ou menos na mesma época em que escreveste tua crônica homenageando o mais recente aniversário de Porto Alegre,

Caras Carol, Gian e Rubem: quem tem amigos tem tudo – lembranças da sessão de autógrafos de Confinado um diário da peste

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Minhas caras, Escrevo na terça-feira. Queria ter escrevido antes, mas não consegui. Se tivesse escrevido antes, teria registrado tudo mais a quente.  Lembrando novamente a Ana Luíza Rizzo, segundo a qual “um livro não é obra de uma só pessoa”, ou algo assim, lembro do incentivo inicial do Gian, quando soube da existência do, digamos, manuscrito digital, “vamu lá”. A notícia logo se espalhou e o Rubem liberou a possibilidade da edição pela Editora Santa Sede, e a Carol aceitou fazer a revisão do texto. Coerente consigo mesmo, o Gian diagramou o livro.  Também a Carol foi a pessoa que disse que o livro não poderia ser publicado sem um lançamento e sessão de autógrafos, como era desejo do autor. Sim, a princípio o autor queria publicar o livro muito discretamente. Carol achou que não fazia sentido. Assim, ela viabilizou uma data conveniente e marcou essa data no Bar Apolinário. O Gian fez as artes da divulgação.  Então, no dia 5 de abril de 2024 lançamos o livro “Confinado, um diário da p