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Auto-Escritor

"Amanhã tenho que passar na editora". São mais ou menos essas as palavras de Paulo, personagem de Carlos Heitor Cony, no livro "Pessach, A Travessia". Um escritor tendo um escritor como personagem é quase metalinguagem.  Mas frase veio recorrentemente à minha mente neste final de 2018.  Um motivo era que a Editora Metamorfose me pediu para retirar os volumes a que teria direito, por conta da antologia "Palavras de Quinta", publicada num sistema de compartilhamento de custos.  Quase simultaneamente, tinham acabado os volumes que eu tinha comigo, de outra antologia em que participei, a "Santa Sede 7, Crônicas de Botequim" (2016) , e entrei em contato com a Editora Buqui, para adquirir mais, já que os autores participantes da antologia podem comprá-los com um bom desconto.  E, de repente, no meio dessas necessidades, acabei realmente por me sentir um escritor. Alguém que já teve textos publicados em livro. Foram três antologias até agora. A...

Caros João e Márcia, pongamos que hablo de gratitud

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  Porto Alegre, maio de 2026 Caros João e Márcia, Há maneiras e maneiras de escrever uma mensagem de agradecimento.  Eu poderia começar relembrando o que a Márcia me escreveu no sábado, dizendo que esperava que eu já estivesse recuperado da viagem e excessos. Lembrou-me a canção de Jorge Drexler onde a letra informa que “fuimos cerrando, uno a uno, cuatro bares” e depois fala em “otra turné por el Madrid de los excesos”. Bueno. Nem creio que fiz tantos excessos assim. Assim, assim. Poderia dizer simplesmente que já havia me recuperado da viagem e dos excessos. A viagem – treze horas em aviões, mais os tempos de conexão – é mais estressante, bem mais estressante, que conhecer lugares novos, e beber e comer na companhia de amigos que te guiam pelos melhores lugares que eles conhecem na cidade do Porto. Sobre comer e beber e caminhar e passear acho que nossos excessos foram moderados.  Eu poderia continuar relembrando justamente essas caminhadas que começaram por uma ida à r...

Tom Saldanha está gripado

Tom Saldanha - fotografia e colecionáveis. Está na placa. A loja fica no coração do Bairro Moinhos de Vento, entre a 24 de Outubro e a Florêncio Ygartua.  Por conta de minhas frequentes idas ao bairro por conta de consultas, é comum que eu faça uma breve visita vez por outra.  Segunda passada fiz isso. Passei pela loja do Tom, por volta das quatro da tarde. A loja estava fechada. Luzes apagadas. Nenhum sinal de Tom.  Entrei em contato. Tom me informou que estava gripado. Estava em casa se recuperando. Por conta disso, não pôde abrir a loja. Influenza. Claro que me lembrei de Gay Talese e sua reportagem Frank Sinatra está resfriado, a qual cito e volto a citar vez por outra. Mas ao contrário da atitude de Sinatra em relação a Talese, Tom não se recusou a falar comigo, nem tem um séquito de funcionários e agregados, aos quais eu pudesse recorrer para traçar um perfil biográfico. Inclusive eu não estive lá no Moinhos de Vento para fazer reportagem. Apenas para ver um amigo....

05/05/2026: sem publicação

  O blogueiro metido a cronista está sem inspiração.  Além disso ele estará de folga a partir da próxima semana por, talvez, duas semanas.  Talvez o texto semanal retorne em 26 de maio de 2026. Talvez.

Dias de outono meridional em 2026

Esta semana estive sem inspiração.  Não que não haja assunto, mas falar do Nero Laranja? Dos governos fascistas aqui e acolá? Não, né? O que mais me vem à cabeça é o outono. Outono no hemisfério sul. Falar nisso, eu continuo achando que mapas publicados no hemisfério sul deveriam ser representados com o hemisfério sul na parte de cima. Um mapa é uma convenção, e a convenção de quem vive no sul não precisa ser a mesma de quem vive no norte.  Divago.  Outono no hemisfério sul. Na nova volta da esfera azul em torno do Sol, nós que vivemos à altura do paralelo trinta meridional vamos mergulhando nas trevas. Perdemos várias horas de luz solar entre o início do verão e o início do inverno. E como sinto falta dessa luz. Não sinto falta do calor que oprime, mas da luz sim. E se aguentar o calor é o preço para ter a luz, eu pago.  Na escuridão uma barata pode acabar se tornando um monstro nas nossas sensibilidade e imaginação distraídas.  Outono. O Sol se põe às dezoito,...

Canção para Hal

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Sou um fã da banda irlandesa U2 desde o álbum The Joshua Tree, lá por 1987, que talvez coincida com o tempo em que a banda se tornou uma “mega” banda, isto é, de sucesso estrondoso. Na época em que ainda se comprava álbuns em mídia física, adquiri The Joshua Tree, Achtung Baby, Zooropa, All That You Can’t Leave Behind e How to Dismantle an Atomic Bomb. Não são todos os álbuns entre 1987 e 2004, mas a maioria deles.  E então passei por uma fase de afastamento. Mais ou menos como acontece às vezes quando a gente, por um motivo ou outro, se afasta de um amigo.  Depois os serviços de áudio por demanda, também conhecidos como streaming, me deram a oportunidade de retomar, digamos, intimidade com as canções da banda. Pude escutar as canções de No Line On the Horizon, Songs of Innocence e Songs of Experience. E enquanto eu lia as memórias de Bono em Surrender , pude ouvir canções dos álbuns Boy ou War.  Enfim, só para dizer que sou um fã.  Depois do álbum Songs of Surrender...

Cara Vivi (II), nem tudo é tão lindo no Rio de Janeiro

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Porto Alegre, abril de 2026. Cara Vivi,  Amamos o Rio de Janeiro, principalmente aqueles de nós que podem desfrutar suas áreas mais turísticas. E em minhas mensagens com loas à exuberante cidade, vinha evitando falar das suas mazelas. Sim, obviamente as há, e obviamente são muitas. Acho que a prosa que mais me tocou sobre as mazelas do Rio de Janeiro é a que me vem através das crônicas da genial Fernanda Torres. Fernandinha (sim, Fernandinha. Fernanda Torres é tão genial e tornada tão ícone do Brasil que a gente se acha no direito de se declarar íntimo) consegue falar sobre os recorrentes problemas do Rio de Janeiro entre a denúncia e a ironia, nos suscitando mais o riso amargo que o rancor. Se não “nos suscitando”, pelo menos “suscitando-me”.  Enfim… Me chamaram a atenção dois textos recentemente publicados. Recente é de fevereiro para cá.  Um foi um relato do repórter Danilo Marques na edição de fevereiro de 2026 (edição 233) da revista Piauí  (infelizmente disponí...

Diário – leituras – Os anos

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Annie Ernaux é a escritora francesa que recebeu o Prêmio Nobel de Literatura de 2022. E isso me levou a adquirir o livro Os anos há três anos. Os anos há três anos.  Concluí a leitura na primeira quinzena de dezembro passado.  Os anos é um trabalho de memória da autora. É como se ela visitasse seu álbum de fotografias, com imagens que vêm desde sua infância, e isso servisse de estímulo para suas lembranças. As lembranças iniciais são do período logo após o final da Segunda Guerra Mundial, na França. Depois seguem o ciclo de uma vida. A adolescência, a juventude, a vida adulta incluindo a vida profissional, casamento, filhos. Divórcio. Aposentadoria.  Junto com as lembranças pessoais há toda uma rememoração social. Desde a falta de saneamento básico na infância, passando pelo surgimento dos diversos aparelhos elétricos criados para facilitar o trabalhos doméstico, passando também pelos ciclos políticos, da França e do Mundo, passando ainda pelos produtos de consumo.  ...