Sobre celebrar São Patrício em 2026



João já era oficialmente um idoso. Tinha chegado à tal provecta idade há não muito tempo. 

Sobre ser idoso, pensa rasamente. Ser idoso é ter lembranças de muitas coisas. Ser idoso é ter de lidar com as crescentes limitações do corpo. Ou talvez pensasse em algo mais profundo. Ser idoso é fazer analogias entre o que ele lembrava que vivera e o que as pessoas que eram idosas quando João era jovem diziam e lembravam. E também fazer analogias sobre o que ele lembrava vivera e o que lera nos livros de História. Se é que isso é pensar mais profundo. 

Nesse ano de 2026 João refletia se ele agora se sentia em um mundo como aquele em que as pessoas haviam vivido nos tempos sombrios dos anos 1930. 

E João pensava que sim e não. Se a figura de Adolf Hitler era assustadora já em 1938, o ex-cabo austríaco não tinha capacidade de lançar bombardeios em qualquer parte do mundo, assassinar ou sequestrar lideranças de nações com a facilidade com que o autocrata do norte faz hoje. 

João acha que vive em tempos sombrios. Além do autocrata do norte, fascismos florescem por toda parte, cevados por lideranças oportunistas, redes antissociais e rancores. Rancores estimulados por essas lideranças oportunistas. 

Apesar disso, João tentava viver da melhor forma que lhe era possível. 

Não sabia exatamente quando, mas se tornara um devoto de São Patrício. Seguiu a onda da devoção em sua cidade, onde desde o início do século XXI vicejaram cervejarias de produção industrial limitada. A cerveja produzida nessas pequenas fábricas costuma ser chamada de artesanal. Cerveja artesanal. A cidade em que João mora fica a dez mil quilômetros da cidade irlandesa mais próxima. São Patrício é o padroeiro da Irlanda, e a celebração de seu dia costuma ser acompanhada da celebração da simpática ilha a oeste da Grã-Bretanha. 

O Dia de São Patrício é 17 de março. Em 2026 caiu em uma terça-feira. 

Na sexta-feira, 13 de março de 2026, João celebrou São Patrício em um pub temático irlandês de sua cidade. No sábado, 14, viu que um amigo publicou foto em rede (anti)social, celebrando o santo em um bar em um bairro boêmio. Juntou-se à celebração. No domingo, outra amiga compartilhou foto mencionando São Patrício. E lá se foi João para a antiga zona industrial da cidade. Antiga zona industrial que se ia transformando em outro bairro boêmio, da cidade que tem alegre no nome, mas que muitas vezes, a João, parece triste. 

Na segunda-feira João descansou. 

Na terça-feira, 17 de março, só por curiosidade passou por outro pub, junto a um shopping de bairro. Só para ver se no próprio dia do Santo haveria chope pintado de verde. Havia. João sentou ali. Pediu o chope. Levantou o copo ao nome do Santo. 

Pensou em Baudelaire.

“Deveis estar sempre embriagados. Aqui reside tudo. É a única questão. Para não sentir o horrível fardo do Tempo que vos esmaga os ombros e vos verga para a terra, é imperativo embriagar-se sem descanso.

Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, a vosso gosto. Mas embriagai-vos.”

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Reprodução de vitral de representação de São Patrício (ou Saint Patrick) na igreja dedicada a ele em Junction City, Ohio, Estados Unidos da América. Copiada da Wikipédia.

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21, 23/03/2026.

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