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O vazio de um vaso

Hoje eu me desfiz do vaso da orquídea . Ficou um espaço vazio na área de serviço.  Talvez eu não devesse pensar tanto em um vaso de flores cuja planta morreu, mas eu penso.  O vaso foi-me entregue na noite em que eu participava do lançamento de um livro, uma coletânea de crônicas por um coletivo de cronistas.  Noite de bebedeira, decepções, sustos, alegrias. De tudo um pouco.  Quando chegou, a planta veio com uma bela flor. Como dito, uma orquídea. Depois a flor caiu, mas a planta vinha se renovando. Renovando folhas, renovando brotos. E assim se passaram três anos.  Nesse verão, ela feneceu e morreu. Não sei se foi o calor excessivo. Ou se exagerei na quantidade de água. Foi uma pena.  Ontem fez cinco anos que minha irmã faleceu. Tinha setenta anos então. Tinha uma vida saudável até um ano antes.  Então, em sete meses, vieram as dores, a falta de diagnóstico, a peregrinação por consultas médicas e exames. E o diagnóstico. Câncer de pâncreas.  Fei...

Uma lista feita em 16/01/2023 de várias leituras que ficaram para trás

Eu costumo fazer um registro daqueles livros que termino de ler. Muitas vezes dá certo. Às vezes eu me atrapalho.  Entre as vezes em que me atrapalhei, abaixo vai uma lista de leituras realizadas que ficaram órfãs de registro, com uma ou duas linhas, informando do que se trata o livro. 1. A microjornada do herói, de Jairo Back: um livro fisicamente pequeno, com diversos microcontos. Aqueles contos bem curtos, em que se diz pouco, e se deixa o leitor pensando, às vezes, muito. Por exemplo, para o microconto intitulado “Ansiedade”: -- Céus! Acabou o Rivotril!  2. A cor do outro, de Marcelo Spalding: um livro destinado ao público juvenil, decifrando o nosso racismo estrutural, sutil. Com o detalhe que é um livro que foi escrito antes do termo / conceito “racismo estrutural” entrar em uso corrente, como ocorre nesta primeira metade da terceira década do século XXI.  3. Quase memória, de Carlos Heitor Cony: o livro em que Carlos Heitor Cony faz uma homenagem a seu pai, recrian...

A orquídea morreu

E parece que a orquídea morreu mesmo .  Apesar de eu continuar a regá-la, e apesar de minhas orações em favor dela.  O que me fez pensar em tantas pessoas que partiram nos últimos dias, e sobre como elas nos influenciaram e influenciam. Ou não. E não necessariamente na ordem em que se foram.  Por exemplo, Roberto Dinamite. O eterno atacante do Vasco nos deixou no dia 8 desse mês, precocemente, aos 68, em decorrência de um câncer. Como não torço para o Vasco, minha principal lembrança de Dinamite foi nos jogos da seleção brasileira na Copa do Mundo de 1978, na Argentina. Aquela que o Brasil ficou em terceiro lugar, sem ter perdido nenhuma partida. Ele foi convocado para a Copa seguinte, de 1982, mas não jogou. Ficou na reserva de Serginho. Eu achava Dinamite um atacante melhor. Assim como achava que o goleiro não poderia ser Valdir Peres, mas essa é outra história.  Outra que nos deixou foi Gina Lollobrigida. A atriz, de fato uma multi-artista, se foi dia 16, aos 95. ...

Diário – Leitura – Um piano dentro da noite

“Honra teu pai e tua mãe”. Está na Bíblia. Livro de Êxodo, capítulo 20, verso 12. Um dos Dez Mandamentos. É isso que Marcelo Villas-Bôas procura fazer em seu novo livro (publicado em 2021), onde traz uma mistura das histórias de sua família e de suas próprias memórias. Para tanto, além de suas memórias como já dito, ele deve ter se amparado em pesquisas, tanto junto a parentes, como em periódicos dos anos narrados no livro (desde a década de 1940 até este século XXI).  Também é uma história de como as pessoas lutam pela sobrevivência e buscam meios para melhorar de vida. Do pai, que tem sua trajetória de músico a advogado. Da mãe, de estudante de internato até administradora. E de Marcelo, desde o primeiro emprego, até jornalista, e, por que não? Escritor.  E também há um foco na cidade de Porto Alegre. E visões sobre como a família e a cidade passaram, entre outros eventos, pela Enchente de 1941, pela Campanha da Legalidade de 1961 e pelo Golpe de 1964. De Marcelo Villas-Bôas...

Uma noite de boemia literária em 11 de janeiro de 2023

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Coisas da boemia: antes de chegar no Apolinário tive oportunidade de “fazer um aquecimento” em outro estabelecimento. No caso o Boteco Andradas, no centro da cidade.  Quando cheguei ao Apolinário, lá estavam posicionados para a oficina, o Rubem e o Marcel. Se bem que ambos deveriam estar ali desde as 18 h (nosso horário é às 20 h). E também, olhando a mesa, e seguindo o sentido horário, o Luciano, a Silvia e a Marcia. Novos colegas, e, por que não? amigos de copo e escrita. Ou escrita e copo, cada um decide como achar melhor.  E aí começamos com esse novo projeto, de escrever crônicas inspiradas em músicas instrumentais. A primeira música a nos inspirar foi Sertão Alagoano, de Hermeto Pascoal. Nessa primeira noite as crônicas foram variadas. Com o Rubem refletindo sobre a especulação imobiliária em Capão da Canoa. O Marcel estabelecendo propósitos para o ano. O Luciano escreveu, fascinado, sobre o filho pequeno. A Silvia fez uma crônica-poema (ou um poema-crônica? Ou um poema-...

Diário – Leitura – As Meninas

As Meninas é um livro que aborda a vida de três jovens mulheres, universitárias, que vivem em um internato na cidade de São Paulo, em um período que fica entre o final dos anos 1960 e início dos 1970. Foi publicado originalmente em 1973. As meninas são Lorena, a filha da burguesia do interior do estado; Lia, a menina baiana, filha de classe média que vem estudar em São Paulo; e Ana, a moça pobre que sonha em se casar com um homem rico.  No decorrer da história vemos que Lorena enfrenta dificuldades em um relacionamento amoroso; Lia se envolve com a política estudantil e com a luta armada contra o regime; e Ana tem muitas dificuldades à medida que se torna usuária de drogas.  Me pergunto como o livro foi recebido por público e crítica naquela segunda metade do século XX.  Apesar de sabermos que a trama é ambientada na cidade de São Paulo, no Brasil daquele tempo, o que temos são universos de três mulheres vistos por dentro (nas mentes das personagens) e por fora (quando um...

Tia Olívia (1930-2023)

Devia ser um sábado como quase qualquer outro. A única coisa menos comum foi que na manhã desse sábado eu resolvi ir a um laboratório realizar os exames que se tornam rotina na vida da gente depois dos quarenta, quando a gente tenta cuidar da saúde.  Do laboratório para casa, resolvi realizar a caminhada diária, recomendada pela médica, aproveitando a falta de pressa e a temperatura amena do início da manhã.  Passei a manhã entre leituras.  No início da tarde, saí para almoçar em um restaurante perto de casa.  Depois do almoço, nova caminhada, até um shopping próximo. Nos dias de verão é bom caminhar sob o ar condicionado do shopping.  De tantas caminhadas, um par de tênis está se entregando. Comprei um novo par de tênis.  Quando eu ia me encaminhando lentamente para a saída do shopping, uma mensagem do Emanuel me interceptou. Tia Olívia, tia-avó dele, tia da Linda havia falecido. Caiu sobre mim o sentimento de luto.  Tia Olívia, a irmã gêmea da Dona D...