Cara Silvia Cambará


Porto Alegre, fevereiro de 2026


Cara Silvia Cambará


Este é um texto cheio de prolegômenos.

No ano da Graça de 2025 participei de uma oficina literária de criação de crônicas que homenageou o escritor Otto Lara Resende. Acredito que ele, o Otto, regule de idade contigo. Além de escritor e jornalista ele também foi adido cultural nas embaixadas brasileiras em Bruxelas e Lisboa. Nessa oficina os participantes se dedicaram a escrever crônicas em formato de mensagens. Estas mensagens podiam ser para pessoas vivas ou mortas, reais ou ficcionais. Essas crônicas-mensagem, e outras explorando a etimologia de palavras, geraram um livro. 

Foi nesse contexto que primeiramente pensei em te escrever, mas há tanta gente a quem podemos endereçar mensagens, que a mensagem para ti acabou não sendo criada a tempo de ir para o livro. Digamos que foi adiada. Pois aqui vai essa mensagem (vale ressaltar que não sei como se comunicam as pessoas por aí onde estás agora. Sei que em 1946 as pessoas se comunicavam muito por carta. Contudo com o avanço da tecnologia, hoje as pessoas se comunicam por uma série de serviços de comunicações instantâneas sobre uma base que chamamos internet, que se tornou popular a partir da metade dos anos 1990. A internet tornou as cartas pelo correio obsoletas. Mas nessa oficina algumas cartas foram enviadas e recebidas. O homenageado, relembrando, o Otto, era um grande missivista. (Sim, é um parêntese excessivo, mas acho que perdoável)). 

Fico divagando em como pensar a respeito de ti, para quem Erico Verissimo era um deus. Você viveu nas páginas da seção O Arquipélago, dentro da obra maior O Tempo e o Vento. Há ali inclusive um diário que escreveste. 

Acredito que na tua época o fenômeno da psicografia já fosse algo popular entre as classes abastadas e médias da população, neste país em que o espiritismo é uma religião com bom trânsito entre essa mesma parcela de nossa gente. Na psicografia um médium recebe mensagens do além, da parte de pessoas já falecidas. Muitas vezes palavras de conforto e encorajamento para parentes e conhecidos que ficaram por aqui. 

Temos um jornalista, o Elio Gaspari, que usando seus conhecimentos de História, vez por outra “psicografa” mensagens de políticos vários já falecidos para políticos viventes atuais em cargos públicos. Com Gaspari, essas mensagens servem para comparações e conselhos, vez por outra temperadas por ironias.

Que tipo de coisa faço quando escrevo para ti?

Sim, chegamos a ti. A moça agregada da Família Terra Cambará, afilhada de Rodrigo Terra Cambará e Flora Quadros Cambará, que acabou como esposa de um dos filhos do casal de padrinhos, João Antonio, o Jango. 

Quando nasceste? Não sei, mas chutaria algo entre 1919 e 1921, pois, se não me engano, teus diários são do período após a Segunda Guerra Mundial. Por esse diário ficamos sabendo que casaste com o Jango, o filho de Rodrigo Terra Cambará que assumiu o trabalho na estância de gado e talvez o menos refinado da prole de Rodrigo e Flora. Pelo teu diário, e por outras partes de O Arquipélago sabemos que houve uma atração entre ti e Floriano, o irmão de Jango, o filho de Rodrigo e Flora que se tornou escritor e intelectual. Pelas indecisões de Floriano acabaste casando com Jango. 

Os anos 1940 ainda eram tempos difíceis para as mulheres (não é que o século XXI tenha tornado a vida das mulheres facilitada, mas a situação no Brasil está menos ruim do que há 80 anos). E ficamos sabendo um pouco disso pelos teus diários. 

Sabes? Acho que das mulheres da saga de O Tempo e o Vento, Erico ficou devendo histórias e sentimentos da parte de Flora Quadros, tua madrinha. 

O Continente, teve em Ana Terra uma grande protagonista, uma mulher forte que sofre injustiças e violências sem deixar-se abater naquelas histórias do século XVIII. Depois tivemos Bibiana, outra mulher forte que fez de tudo para a sobrevivência e o sucesso do neto Licurgo. 

Mas não tivemos histórias para Flora Quadros. Acho que tua madrinha merecia. 

Sabes? Os estadunidenses têm uma palavra para pessoas que escrevem obras derivadas de um universo ficcional criado por outrem. Chamam isso de “fan-fiction”, uma ficção escrita por um fã. Eu devaneio que aparecerá uma escritora que dará expressão aos sentimentos de Flora Quadros. Do que ela viveu e sofreu desde a infância até a velhice passando pelo casamento com Rodrigo Terra Cambará. Um casamento que nunca foi desfeito apesar das constantes traições de Rodrigo. 

E aí está, cara Sílvia. Rodrigo Terra Cambará, em contraste, é mostrado em toda a sua complexidade, com seu machismo e seu idealismo, suas bondades e suas maldades, a tal ponto que se alguém vivesse entre o final do século XIX e a primeira metade do século seguinte e conseguisse achar a Santa Fé de Erico não teria dificuldades de também encontrá-lo. Acho que faltou a Erico que Flora fosse descrita à altura de Rodrigo, mais ou menos como aconteceu com Ana Terra e Bibiana. 

Eu acharia bom se uma escritora desenvolvesse essa história, Revelando mais de Flora Quadros naquela sociedade machista e patriarcal, repressiva, em que ela viveu. Penso naquela mulher e mãe de família entre, digamos, 1910 e 1946. 

Em todo caso, cara Silvia, que bom que Erico te deu voz através de teu diário. 

Sabes? Acho que teria mais coisas para te dizer, mas fico por aqui. Tua história para nós se encerra no final da primeira metade do século XX. Até quando ela poderia ir? Até quando poderias viver? Não sei. De alguma forma vives eternamente pois és personagem de um livro. Por outro lado, talvez alguém diga que nunca viveste pois és personagem de um livro. Termino dizendo que és tão real que te endereço uma mensagem. 

Com um abraço, 

do José.


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28/01/2026, 17/02/2026, 09, 10/03/2026. 

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