Diário – leituras – Hospitalares


Edgar Aristimunho é conhecido nos meus registros. Há um texto sobre minha leitura de seu livro O Homem Perplexo. Há referências ao seu Diário do Confinamento nos textos que compõem o meu Diário da Peste. Além disso participei junto com ele na coletânea de crônicas conto Histórias Stanislawianas publicada em 2023. Edgar Aristimunho distribuía o Diário do Confinamento via aplicativo de mensagens, como se fosse uma newsletter. O confinamento acabou e ele iniciou os Diários Ocasionais pelo mesmo veículo de comunicação. Então parei de receber os Diários Ocasionais. Imagino que ele os tenha parado de escrever. 

Agora ele publicou pela Santa Sede Editorial este livro chamado Hospitalares. Ou com um subtítulo, Hospitalares (fragmentos). Para mim ler esse livro foi como ouvir a voz de Aristimunho, como quando eu ouvia em minha cabeça cada vez que lia algum capítulo dos Diários do Confinamento ou dos Diários Ocasionais. Contudo, se é a mesma voz, as circunstâncias são diferentes. Se nos dois Diários ele tentava fazer o registro do cotidiano nas condições em que se apresentavam, aqui há o choque de um problema de saúde, potencialmente mortal, que precisa ser assimilado. 

Um choque que rege a criação dos textos. 96 fragmentos, numerados como capítulos em números romanos. Assim, XCVI fragmentos. Que, na minha cabeça soam como resumos dos anteriores diários. Semelhantes mas diferentes. Diferentes mas semelhantes. É o mesmo Aristimunho. É um Aristimunho diferente. 

Ali está um homem perplexo com a sua condição de saúde, mas também está o homem da literatura. Por exemplo, no fragmento XXXI, fala de um velhinho, colega de quarto que vai embora. E o velhinho soa como um personagem coadjuvante em um texto literário, “Amou na vida, lhe pergunto. Ele não ouve minha pergunta (ou ignora, nunca saberemos)”. 

Ali está um homem perplexo com a sua condição de saúde. No fragmento XXXV ele diz “Minha pressão arterial não recua. Pensar nisso deve elevar ainda mais os meus valores em um ou dois pontos de medição. Ser paciente é negar tudo que está acontecendo. Ledo engano. Sou impaciente mesmo.”

No fragmento XXXVI comenta as mudanças no, digamos, metabolismo. “Comecei a perder a fome. (…) Quero a fome de ter fome.”

Nada bom foi o que me ficou na cabeça ao ler o fragmento XL, em que “O médico disse que não parecia bom – nada bom, aliás, muito mal.” O leitor ávido chamado Edgar Aristimunho ainda tem tempo de citar Raymond Carver em meio às suas atribulações. 

Em seguida, no fragmento XLI, Aristimunho termina dizendo que “Era preciso fazer algo banal”. Afinal ele recebera a mais terrível notícia de sua vida. 

Por fim, termino citando o fragmento LVIII, onde ele cita a esposa e o filho. Remeteu-me muito muito aos antigos Diários. 

Um livro que acho que vale a pena ser lido. Afinal são impressões diante de um homem que reflete diante de sua finitude. 


ARISTIMUNHO, Edgar. Hospitalares. Porto Alegre: Santa Sede, 2025. 

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31/12/2025, 13/01/2026.

Comentários

  1. Hoje "escutei" tua crônica em 2 vozes. Vozes de autores e amigos. Roda de conversa.

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  2. Muito obrigado pelo carinho, Meu Amigo !

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