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Diário – leituras – Arrabaldes

Arrabaldes é um livro de contos escrito por Nelson Ribas. O primeiro livro de contos dele, se não me engano. Se trata de uma obra com trinta e seis histórias, que tratam de perdas, como O Bolo de Milho; de êxodo rural na sequência de contos que vai de Catador de Ilusões a Perdas; e até de suspense/terror, caso de As Tias e de Feitiçaria.  Essa série de contos que vão de Catador de Ilusões a Perdas poderiam servir como um núcleo para o desenvolvimento de uma narrativa longa, novela ou romance, em que o autor poderia desenvolver mais os dramas decorrentes do êxodo rural e dos trabalhos precários na cidade grande.  Ribas se esmera em construir histórias bastante curtas. Acredito que alguns de seus personagens e circunstâncias pedem que suas narrativas se tornem mais longas para que o potencial leitor possa melhor fruir delas, das narrativas.  É um bom livro, que se pode ler bem rapidamente.  RIBAS, Nelson. Arrabaldes. Porto Alegre: Metamorfose, 2022.   19, 29/06/2...

Feliz aniversário

– Anteontem foi aniversário da Leila. – E?… – Mandei uma mensagem para ela desejando feliz aniversário. – E?… – Achei que era a coisa certa a fazer. – Por que tu diz isso? Ou melhor, por que tu está trazendo isso? – Ela não respondeu. Eu nunca sei direito o que fazer. O aniversário dela é sempre uma data complicada. Sempre tem sido, desde que nos separamos. – E vocês se separaram já se vão uns bons anos, não? – Sim. – E qual o problema então? – O problema é que nesse tipo de data, cada vez que penso em me dirigir a ela, me sinto culpado. Afinal eu causei a separação, eu traí. – Uma coisa que repetimos aqui é que uma relação a dois é uma relação a dois, e quando ela termina, não é por culpa de apenas uma pessoa. Eu já falei aqui, pelo que temos conversado, que tu não estavas feliz na relação e procuraste um meio de sair dela. – Sim. Tu já disse. É algo que constantemente eu trago de novo e de novo para as sessões. E acho que sempre vou trazer. Nessas datas sempre fico achando que arruin...

Diário – leituras – O rei dos dividendos

O rei dos dividendos é um livro de memórias de Luiz Barsi Filho. Ele é o maior investidor pessoa física na Bolsa de Valores do Brasil. O título é devido ao fato que quando começou a economizar e investir, Barsi Filho optou primariamente pelo investimento em ações nas bolsas de valores, lá pelo final dos anos 1960, início dos 1970. E sempre em ações que pagassem dividendos aos seus portadores. Barsi Filho botou tanta fé no investimento em ações que chegou a escrever um ensaio chamado Ações Garantem o Futuro, onde propunha esse tipo de aplicação para uma aposentadoria financeiramente mais tranquila.  Apesar disso tudo, o livro não é um manual para se tornar um investidor em ações. É, de fato, um livro de memórias.  Essas memórias começam com ele sendo filho único de uma mãe viúva, formando uma família que vivia em um cortiço, na cidade de São Paulo. Esta mãe batalhadora deu condições a que este filho esforçado pudesse estudar. Barsi Filho conseguiu completar sua educação superio...

Depois da catástrofe de maio de 2024 – III

Em meados dos anos 1970 houve um aumento, ou um ressurgimento, dos chamados filmes catástrofe. Lembro de títulos como Inferno da Torre, Terremoto ou Tubarão que devem ter sido sucessos de bilheteria daquela época. Falo em aumento porque a indústria cinematográfica sempre se alimentou de tragédias. O naufrágio do Titanic já foi recriado diversas vezes no cinema; a primeira pouco tempo após o famoso navio ir a pique, no início do século XX. Citei três títulos que fizeram sucesso, e os quais não vi na época, porque era criança, e não me permitiriam entrar nas salas de exibição. Fui ver Tubarão muito depois, já não me lembro em qual circunstância.  Os filmes catástrofe seguiram, seguem, sendo produzidos. Na década seguinte, dos anos 1980, assisti no cinema ao filme O Dia Seguinte (“The Day After”, Estados Unidos, 1983). Naqueles dias de acirramento da chamada Guerra Fria, sob a presidência de Ronald Reagan, o filme imaginava como aconteceria um conflito direto entre os Estados Unidos e...

Doralino Souza

Por esses dias faleceu o Doralino Souza. Não sei exatamente em que dia. Não sei o que causou sua morte. Só sei que lamento.  Doralino era escritor e divulgador de literatura. Um agitador cultural. Publicava com regularidade a revista eletrônica Paranhana Literário, onde divulgava graciosamente a obra de uns tantos escritores aqui do Rio Grande do Sul. Em um dos números até eu fui publicado.  A única vez que estive em contato com ele foi quando ele lançou seu livro Dentes no Copo de Uísque, em um boteco nos altos do Viaduto Otávio Rocha, aqui em Porto Alegre. Depois os contatos foram sempre virtuais. Lamento que não tenham acontecido outros encontros.  Uma grande perda, de um homem talentoso e relativamente jovem (acredito que aí pelos seus cinquanta e poucos). Lamentável. Que descanse em paz.  23, 24/06/2024. 

Diário – leituras – Falso Lago

Tendo lido o que acredito seja o primeiro livro publicado de Carolina Panta, Dois nós , e tendo gostado, resolvi adquirir esse novo livro, Falso Lago.  Se no primeiro livro, as lagoas do litoral norte do Rio Grande do Sul tinham papel importante, aqui as águas já começam no título desse falso lago, que é o Guaíba.  Falso Lago conta a história de Luciana, mulher que vive às voltas com a precariedade da vida, vida que, suponho, já teve dias melhores. Usa remédios psiquiátricos para tocar essa vida adiante. Já foi professora universitária, e no início do livro está às voltas com o desemprego. Vive com o pai, idoso e com problemas com diabetes, e com o filho, que começa a se manifestar como adolescente rebelde, na cidade de Porto Alegre. Na rua em que moram vive Claudia, mulher jovem e envelhecida, sem teto, com problemas psiquiátricos, às voltas com invocações e maldições religiosas. Uma nova oportunidade se apresenta para Luciana, com um emprego de assistente social na prefeitur...

Diário – filmes – Coco antes de Chanel

Como já disse, assisti Ficção Americana em maio . Também, no final desse mês, assisti o filme Coco antes de Chanel (“Coco avant Chanel”), produção francesa de 2009, em que a atriz Audrey Tautou encarna a mulher que vai se tornar uma referência em costura na França e no mundo.  Nesta história vemos a formação de Gabrielle Chanel, desde criança quando foi deixada em um orfanato junto com a irmã, até seu o início da carreira como costureira. É uma atuação de muitos silêncios e olhares. Desde que Gabrielle (Coco) é menina, até o final. Todo esse silêncio faz pensar se a personagem é muito introvertida, ou se ela acha que tem que ter muita paciência com as pessoas ao redor. Eu ficaria inclusive com essa última hipótese. E sempre é possível lembrar que um filme de recriação ficcional de uma biografia, pode alterar a história acontecida para fins dramáticos.  Um filme interessante sobre uma mulher que adota princípios que poderiam ser chamados de feministas antes do feminismo se arti...