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Ano Morto

Faz umas duas semanas, Rubem informou quem deve ser o homenageado na Masterclass Santa Sede 2021. No caso o Poetinha, Vinicius de Moraes.  A notícia me lançou em rosto a anormalidade deste ano que se encaminha para o final (logo inicia outubro, período em que o comércio lança suas campanhas de vendas para o Dia da Criança, quando passa o Dia da Criança, começa a publicidade do Natal. De quebra ainda incorporamos a Sexta-Feira Negra - "Black Friday" - ao nosso calendário de consumo. Aliás, com o novo hábito de compras de saites chineses, logo incorporaremos ao calendário de compras o Dia do Solteiro - 11 de novembro.).  Parece que realmente pulamos o ano.  A peste fechou o mundo. No Brasil são quatro milhões de contaminados e cento e quarenta mil mortos. Até agora.  Por conta da pandemia, em minha condição de pequeno burguês urbano, tive cancelada uma viagem, e, pelo menos, dois shows a que eu gostaria de assistir.  A peste fechou o mundo, mas congestionou a tela...

Desprazeres de um homem maduro

Ontem estive em consulta com meu urologista. Ele olhou meus exames. Níveis de PSA, ecografia abdominal. Disse que estava tudo bem. E basicamente encerrou a consulta. Ainda segundo ele, um ano era um bom prazo para uma nova consulta. Fiquei decepcionado. Esperava um exame de toque retal. 23/07/2020.

Leite

Leite. De caixinha, o Amor diz que gosta de leite fresco, tipo B, tipo A, mas já cansei de deixar leite estragar na geladeira. Yogurte. Pão integral. Bergamota, maçã, banana. Limão siciliano pro gin tônica. Batata, cebola, tomate, alface. Água mineral. Cerveja não precisa; já tem bastante e o Amor parou dizendo que causa barriga. Detergente pra louça, a louça não para nunca. Desinfetante de lavanda; não sei como banheiro suja tanto. Papel higiênico, folha dupla; como se gasta. Por fim, camisinha de textura fina. O amor reclamou que as últimas pareciam coisas maciças, apesar do sabor de morango. Vai entender.  Pronto. Agora só passar no caixa.  Descarrega tudo que foi carregado. Passa o carrinho vazio.  "Como o senhor vai pagar?"  "Cartão da Rede."  "CPF?"  "Não."  "Estacionamento?"  "Também não." Sacolas no carrinho, agora é só chamar o aplicativo.  Chegou. De volta pra casa.  Cidade vazia. Monte de loja fechada. Me dá a impre...

Diário - leituras - Vila Sapo

"Vila Sapo" é o livro de estreia do escritor José Falero. São seis contos, de histórias acontecidas na, ou partir da, Vila Sapo do título, comunidade na Lomba do Pinheiro, na periferia de Porto Alegre.  Ali Falero compõe sua galeria de personagens, adolescentes ou jovens, que tentam sobreviver e se divertir, na medida do possível. E a violência joga ali um papel forte.  A violência à espreita dos adolescentes do conto Atotô, reunidos em uma noite fria na pracinha da vila. A violência dos jovens em fuga das humilhações de todo dia, em Dignidade-relâmpago.  Um possível acerto de contas em Encontro de Negócios.  A possibilidade de um linchamento em Rosa-Bebê. Mas também o amor adolescente em Aconteceu Amor.  Ou uma viagem pelo cotidiano em Um Otário com Sorte.  Este último conto, uma viagem por Porto Alegre, o que me fez me perguntar se esse otário com sorte não seria o próprio escritor. Nesse aspecto, me parece que Falero já se insere entre os escritores que ...

Covid em Quatro Estações

Nesse dia 22 de setembro de 2020 foi o equinócio da primavera no hemisfério sul.  Foi no final do verão que a ameaça da covid-19 se tornou uma ameaça plausível no Brasil. O primeiro caso que então se relatava teria sido no final de fevereiro, e a primeira morte em decorrência da doença teria sido na primeira quinzena de março.  E foi justamente no início do outono, que foi meu último dia de trabalho "in office". Dia 20 de março, uma sexta-feira. Desde então estou em teletrabalho.  Se as telas se tornaram tudo para nós, o cinema, o teatro, a reunião de trabalho, e até o happy hour, a janela do meu apartamento se tornou meu ponto de vista privilegiado.  Por ela pude acompanhar o bisnagueira, cujas flores cor de laranja, permaneceram por praticamente todo outono.  Pude acompanhar os passeios e as correrias dos gatos. Pisando na grama, às vezes distraídos, mas logo atentos.  Pude ouvir os chamados dos entregadores, que traziam de tudo, móveis, eletrônicos, livr...

Vezes do João Bobo

Ontem me aconteceu de novo: gozei, desinflei, desmaiei. 21/07/2020. 

Registro de Lives - Ingrata

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Instigado por reportagem no Correio do Povo , assisti à esquete "Ingrata" , no Projeto Interpretando.com . No caso, o instigante foi que a atriz, Maia Maranhão também conhecida por Manu, me é conhecida, pois também tem emprego temporário em um boteco que eu frequentava antes da peste.  Ingrata é uma esquete em monólogo, de cerca de cinco minutos, em que a atriz discute sexualidade e relacionamentos, expondo a tal ingratidão do título. A performance cresce à medida em que os minutos vão se desenrolando.  Detalhe técnico: a captação de imagem talvez poderia ser melhor, com maior densidade de linhas, ja que hoje em dia e trivial cãmeras que captam em 1.080 linhas. O talvez vai porque pode ser que tudo tenha sido de propósito, como, por exemplo, a imagem em formato quadrado, em lugar do tradicional retangular.  Como isso poderia ser feito em teatro? Possivelmente enfileirando diversas esquetes dessas juntas.  Como eu disse, a performance cresce à medida em que os minutos...