Cara Vivi (II), nem tudo é tão lindo no Rio de Janeiro


Porto Alegre, abril de 2026.


Cara Vivi, 


Amamos o Rio de Janeiro, principalmente aqueles de nós que podem desfrutar suas áreas mais turísticas. E em minhas mensagens com loas à exuberante cidade, vinha evitando falar das suas mazelas. Sim, obviamente as há, e obviamente são muitas. Acho que a prosa que mais me tocou sobre as mazelas do Rio de Janeiro é a que me vem através das crônicas da genial Fernanda Torres. Fernandinha (sim, Fernandinha. Fernanda Torres é tão genial e tornada tão ícone do Brasil que a gente se acha no direito de se declarar íntimo) consegue falar sobre os recorrentes problemas do Rio de Janeiro entre a denúncia e a ironia, nos suscitando mais o riso amargo que o rancor. Se não “nos suscitando”, pelo menos “suscitando-me”. 

Enfim…

Me chamaram a atenção dois textos recentemente publicados. Recente é de fevereiro para cá. 

Um foi um relato do repórter Danilo Marques na edição de fevereiro de 2026 (edição 233) da revista Piauí (infelizmente disponível apenas para assinantes). O título do texto é “A Paisagem Brutal”. Criado em São João do Meriti em família de classe média baixa, a impressão que tive é que para Danilo a cidade do Rio de Janeiro por muito tempo esteve mais distante do que para nós de Porto Alegre. A cidade do Rio de Janeiro era um lugar do qual ele se sentia excluído. Criado em São João do Meriti ele só foi conhecer a Zona Sul da Cidade Maravilhosa na adolescência com seus talvez 16 anos. A cidade do Rio de Janeiro só passou a ser um lugar cotidiano para Danilo após ele ser aprovado no vestibular para jornalismo na UFRJ. 

Estudante de jornalismo na UFRJ, estagiário da Piauí, depois repórter da publicação, Danilo Marques sem dúvida passou por um processo de ascensão social. 

Mas seu depoimento mostra uma pessoa que se sente ou se sentia excluída, e denuncia a beleza da Zona Sul com sua exuberância de mar e morros mais boa arquitetura como uma hipocrisia ou um cinismo por parte da burguesia carioca, que mora nesses locais privilegiados em beleza e recursos, e que parecem estar disponíveis a todos, mas que são, de fato, mais para usufruto de poucos privilegiados. 

De quebra, já na vida adulta, Danilo Marques passou a carregar o trauma de ter um tio assassinado na Baixada Fluminense, vítima da guerra entre facções do crime organizado. 

O outro texto foi uma reportagem sobre o lançamento do livro de Marcelo Freixo, chamado Viver é perigoso, na Folha de São Paulo. Ali eu fui informado que Marcelo Freixo, o homem que denunciou com força as milícias no estado do Rio de Janeiro, e que teve a correligionária Marielle Franco assassinada, também teve o irmão caçula assassinado, por não querer se submeter à extorsão de milícias em Niterói. 

Pois é. A violência une essas duas histórias. 

O estado e a cidade do Rio de Janeiro são violentos, como o Brasil é violento. E isso já faz tempo. E ali, uma espécie de vitrine do Brasil, a violência acaba chamando mais a atenção. Quando ela vai diminuir? Não sei. Não sei nem SE vai diminuir. A vida vale muito pouco no Brasil, entre seus concidadãos. Ou, talvez, como dizem Caetano e Gil, isso seja consequência de que, de fato, “ninguém, ninguém é cidadão”. 

Sobre a paisagem brutal, não sei. Todas as cidades têm espaços privilegiados e têm segregação. Gentrificação é uma palavra que se tornou universal. 

Termino dizendo que apesar disso tudo, creio que não deixaremos de ficar arrebatados pela Cidade Maravilhosa, nem deixaremos de visitá-la quando nos for possível.


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Reprodução da imagem que ilustra o relato na revista Piauí

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13, 14/04/2026.

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