Mapas


Porto Alegre, 26 de maio de 2025.

Caro Rubem,

Esta carta bem poderia tratar de etimologias. Assim, mapa viria do latim mappa, que significaria basicamente pano. No Império Romano, os mapas eram produzidos sobre tecido. O alemão antigo teria incorporado mappa, transformando-a em mappe, onde assumiu o significado atual, derivando então, com variações fonéticas, para outros idiomas, inclusive o nosso. Foi uma IA que informou isso. Não sei se é verdadeiro, mas é verossímil.

Esta carta poderia lembrar também de uma oficina literária de que participei há uns poucos anos. Naquela oficina eu e os outros oficineiros tínhamos que escrever crônicas a partir de manchetes de jornal tal qual o saudoso Moacyr Scliar fez por uns tantos anos. A manchete foi publicada no jornal Folha de São Paulo e diz “IBGE lança mapa-múndi de ponta-cabeça e com Brasil no centro”. 

Quando um emissor diz que o tal mapa está de ponta-cabeça, já nos informa seu ponto de vista. Ele está com a cabeça extremamente norteada. 

Pelo que li e aprendi, os tais planisférios ou mapas-múndi planos, tais quais costumamos ver em atlas escolares e representações em meios de comunicação de massa, são uma convenção. Aliás, uma convenção e algumas distorções. A convenção é essa de representar o norte na parte de cima, o que bem convém aos países europeus e da América do Norte. Talvez não seja coincidência terem sido os países que lideraram o imperialismo que construiu no final do século XIX as bases do mundo tal qual é hoje. Entre as distorções a que mais se destaca é, nesse mapa plano, a Groenlândia parecer maior que o Brasil. A Groenlândia tem 2,1 milhões de quilômetros quadrados, o Brasil 8,5 milhões. 

Posso me lembrar de duas tirinhas da Mafalda. Em uma, um professor mostra um mapa-múndi com o sul para cima, e Mafalda diz que o mapa está “al revés”. O professor responde que  a Terra é uma esfera flutuando no espaço. Tanto faz se o norte estiver em cima ou não. Em outra tirinha Mafalda vê um globo representando o planeta e se preocupa se as pessoas no hemisfério sul, representado na parte de baixo, não cairão. 

Não consultei mapas feitos na Roma Antiga. Mas a expansão de Roma, depois de dominar seus vizinhos na Península Itálica, se voltou para sul, oeste e leste, e só então para o norte. É possível que houvesse mapas Romanos suleados (com o sul em cima), oesteados (com o oeste em cima) ou lesteados (acho que o conceito já foi entendido). 

Já li pela internet que a Austrália produz mapas suleados com ela mesma, a Austrália, no centro. Alguns desses saites dizem que é por piada. Não sei. Temos também o já clássico desenho do uruguaio Torres García, com o sul da América do Sul apontando para cima. Esse desenho estampa camisetas e sacolas de pano por aí.

A notícia insinua que o presidente do IBGE estaria querendo lacrar com o tal mapa suleado. Quem sabe? Quem não quer lacrar hoje em dia? O jornalista não quis lacrar com a manchete que publicou? Por outro lado, repetindo o clichê corporativo, me parece que esse jornalista não conseguiu pensar fora da caixa; não só ele, claro. 

O mapa suleado não é convencional. Apelando novamente ao jargão corporativo, pode até ser disruptivo. Mas me parece que errado não está. Muito menos de ponta-cabeça. Aparência não é essência. 

Na minha opinião o jornalista passa pano para uma convenção.

Abraços calorosos! José. 

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Mapas criados pelo IBGE

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P.S. Esta crônica mensagem foi produzida para a oficina de crônicas da Santa Sede em homenagem ao escritor Otto Lara Resende (1922-1992). A oficina aconteceu entre março e agosto e gerou um livro, que foi lançado dia 2 de novembro passado na 71ª Feira do Livro de Porto Alegre. Este texto não entrou no livro. 


26, 27/05/2025, 02/06/2025, 07/11/2025.

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