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Mostrando postagens com o rótulo mini-historia

Reflexões de um velho ranzinza – Pescoço

Com 61 anos, e aguardando a aposentadoria, a vida não tem sido fácil.  Naquela sexta, quando cheguei no bar, meu sobrinho já estava lá. Tomando aquela cerveja da garrafinha verde.  – E aí, tio? Tudo bem? – Tudo. E contigo? – Tudo bem. Tu sabe o que significa “long neck”?  – Não tenho certeza…. – Pescoço comprido. Pra ficar mais parecido a gente pode dizer pescoço longo.  – E daí? – Eu tava aqui bebendo a minha cerveja e imaginando…. – O quê? – Tu sabe que lá nos Estados Unidos eles têm um mercado mais desenvolvido, com mais variedade….  – Sim?... – Então! Será que lá eles tem garrafas “short neck”, ou seja, pescoço curto? Me senti meio confuso, e dei um sorriso. Mas achei sem graça. 21/07/2022 

Sobre o inferno – 3

Na mais recente vez que vi o fauno, ele não estava sobre montes ou colinas, querendo pregar a multidões, ou a públicos de qualquer tamanho. Estava em um bar, bebendo com um amigo.  Bebeu um gole de cerveja de um copo que ia pela metade.  Pude ouvir quando falou ao amigo.  – Eu vivo falando que o inferno é como um lugar onde as coisas caem no chão e tenho de juntá-las.  – Mudou de ideia? -- Perguntou o amigo.   – Não. Semana passada virei uma garrafa destampada de óleo de soja no chão da cozinha.  – E?  – Situação ainda mais infernal!  04/07/2022.

Reflexões de um velho ranzinza – Contestação de compra

Com 61 anos, e aguardando a aposentadoria, a vida não tem sido fácil.  Hoje de noite tive que ligar para o banco para questionar uma compra no meu cartão de crédito. Eu só fiz uma compra no supermercado, mas aparecem duas compras. Acho que em algum momento, em algum local, no supermercado do shopping, aproximou alguma maquininha e me lesou por aproximação. Eu fiz compras numa farmácia, e no supermercado.  Depois de dez idas e vindas, nas opções das respostas automáticas, finalmente uma pessoa vai falar comigo. Claro que antes de começar, ela pergunta meu CPF, minha data de nascimento e o nome da minha mãe. CPF que eu já tinha digitado.  – Boa noite, Sr. Antonio. Esta chamada gerou um protocolo, o 202201029385. O senhor quer anotar?  – Vocês podem me mandar um torpedo ou um email?  – Sim, podemos. Deve acontecer ao final da ligação. Em que posso lhe ajudar?  – Eu queria reclamar de uma compra que eu não reconheço no supermercado.   – Pois não. O se...

Reflexões de um velho ranzinza – Fiat Palio

Com 61 anos, e aguardando a aposentadoria, a vida não tem sido fácil.  No início da noite passada, eu estava voltando pra casa no busão.  Numa sinaleira, um palio velho vermelho, com pintura queimada, tinha um adesivo no para-choque: "Não me inveje. Trabalhe." Um palio velho não muito melhor que o meu.  Como diz uma conhecida minha, autoestima é tudo. 15/05/2022 

Reflexões de um velho ranzinza – Malefícios do consumo de cervejas

Com 61 anos, e aguardando a aposentadoria, a vida não tem sido fácil.  Noite passada eu estava tomando umas cervejas.  Eu devia estar na quarta garrafa. A tampinha caiu no chão. Não sei porquê quando eu abri, pelo jeito, a garrafa estava sob pressão. Começou a sair espuma como se eu tivesse abrido uma champanhe sacudida. Fiquei transtornado, gritando palavrão sozinho.  Pior. Quando fui juntar a tampinha, dei um mal jeito na coluna.  25/05/2022 

Reflexões de um velho ranzinza – Resta um

Com 61 anos, e aguardando a aposentadoria, a vida não tem sido fácil.  Quando eu estava no primeiro grau, de fato no primário, eu tinha um colega chamado Marcelo.  Uma vez ele me convidou para ir na casa dele. Talvez tenha sido mais de uma, mas essa eu acho que me lembro melhor. Ele tinha um joguinho chamado de Resta Um. Eu não conhecia. Era um tabuleiro quadrado azul, com um monte de pecinhas brancas. A gente ia fazendo uma pular por cima da outra, mais ou menos como no jogo de damas. Aquela que foi pulada saía. Até que só sobrasse uma peça. A topizera, como a gurizada fala hoje, era deixar a peça que sobrava no centro do tabuleiro. Um brinquedo para se brincar sozinho.  Às vezes eu fico olhando para as cartelas dos comprimidos que eu tomo, e me lembrando daquele joguinho. “Uso contínuo” o doutor escreve na receita. Vou tomando. Tem um momento que resta um. Depois nenhum.  Quanto tempo me resta? 25/05/2022 

Inquietação sobre o fim

Inquieto sobre o fim da novela que estava escrevendo, o obscuro escritor pensou muito. Foi ao final do arquivo do futuro livro e escreveu: "FIM". Olhou. Continuou pensando.  Não se sentiu satisfeito.  19/05/2022.

Reflexões de um velho ranzinza - Mijar

Sou um velho com 61 anos, que aguarda ansiosamente a aposentadoria. São mais de 45 anos entre desemprego e empregos mal pagos. 45 anos para conseguir um apartamento apertado em um prédio ruim na periferia, uma lata velha do século passado como "carro", e perspectiva nenhuma de bem-estar na tal aposentadoria. Mijar. Ou urinar como diz quem quer ser menos bagaceiro.  Acho que não tenho nenhum problema sério de próstata. Com a minha idade, eu ainda mijo forte.  Coisas de louco da vida. Eu mijo sentado no vaso. Começou quando eu estava com uma mulher. E agora mesmo sozinho eu ainda faço isso. Acho que suja menos, porque quando a gente mija de pé espalha respingo pra tudo que é lado. Assim fica menos sujo.  Num final de tarde, no bar, quando falei isso pro meu sobrinho ele riu. Me chamou de bicha, de metrossexual. Até de esquerdista. Eu ri junto e dei de ombros.  Acho que com a minha idade e sem grandes dificuldades de mijar, eu deveria estar contente. Fico chateado, e ac...

Cancelado

Durante a despedida de solteiro, o noivo teve um infarto. Fulminante.  28/04/2022.

Sem proteção

Assustado com a violência, e com medo de ter o celular com aplicativos de banco roubado, João comprou um aparelho usado e outro chip. Um sábado foi ao parque. Passou a tarde lá.  Voltou ao pôr do sol. Encontrou viaturas da polícia e movimento no prédio.  Perguntou aos policiais o que aconteceu. O policial respondeu que arrombadores conseguiram entrar no condomínio e invadiram e saquearam alguns apartamentos. Segundo o policial, os ladrões teriam entrado em imóveis vazios no momento da ação. João se apressou ao seu apartamento.  Chegando lá percebeu que a porta não estava trancada.  Além de muita coisa fora do lugar, deu pela falta do laptop. E do celular que ficara em casa.   22/04/2022.

Tecnologia de dormir

Pouco antes das onze da noite, ela colocou a tocar no celular, sons de chuva para relaxar. Deitou e pouco depois adormeceu. Acordou pela manhã, com o som da chuva batendo em sua janela.  13/04/2022. 

Desmascarado

Até quando dura a peste? Numa noite assombrada destas, sonhei com pessoas sem máscara pelas ruas e pelos xópings.  Acordei pensando naquilo. Preocupado.  Quando passou o perigo? Até quando dura a peste? Duas semanas depois visitei um xóping na zona sul da cidade.  A maioria das pessoas andava com o rosto descoberto.  Os amigos que me acompanhavam se constrangeram (ou se sentiram liberados?) com as máscaras e também as guardaram.  Me intimaram a fazer o mesmo.  Contrafeito, temeroso, tirei a de pano.  03/04/2022.

Sobre Guerras

O fauno voltou ao alto da colina, e recomeçou suas diatribes. "É sabido que há uma guerra na fronteira do ocidente com o oriente." "Um país invadiu o país vizinho, e muitos outros países resolveram punir o agressor." "A guerra tem cinquenta dias. É menos que as principais guerras do século passado, mas um martírio interminável para os que a estão sofrendo!" "Um guru fala da decadência do ocidente. Um especialista fala da decadência do oriente." "Entre os líderes mundiais parece que há mais os que querem que a guerra continue, que os que querem que ela termine." "Eis o que digo: há muitos homens que falam demais, muitos homens querendo brigar." Parou de falar. Calou-se e sentou-se, mirando o nada.   31/03/2022.

Sobre o inferno – 2

Depois de correr colina abaixo, atrás do rolo que emulava um pergaminho antigo, aparentando cansaço, o fauno sentou no chão. Não gritou. Falou baixo, quase sussurrou. Só quem estava próximo pôde ouvir.  “É. Cada vez que uma coisa cai no chão e tenho que juntar, eu penso que o inferno deve ser um lugar onde as coisas caem no chão e temos que juntar.” Botou as mãos na cabeça, fechou os olhos e suspirou profundamente. 09/03/2022. 

Reflexões de um velho ranzinza: Férias - 2

Tenho 61 anos. Trabalho há mais de 40.  Agora é início de ano. Época que muita gente tira férias.  Eu estou de férias, mas não estou.  Estou de férias, e sigo trabalhando. 28/02/2022. 

Reflexões de um velho ranzinza: Férias

Tenho 61 anos. Trabalho há mais de 40. Não gosto de pensar muito do que fiz da minha vida.  Agora é início de ano. Férias. Época que muita gente tira férias.  Meu sobrinho tirou.  Antes de sair, quando nos encontramos para beber cerveja uma sexta dessas, ele me mostrou no celular fotos de redes sociais de amigos e conhecidos dele. Só foto boa. Pessoal na praia. Em piscina. Sempre com uma cerveja. Às vezes umas bebidas coloridas com gelo, canudos e rodelas de limão. Esse pessoal parece que vive bem. Eu também deveria tirar férias. Até vou tirar. Mas só no papel. Eu assino a papelada, mas continuo vindo trabalhar. Não registro no livro ponto.  Vou fazer o quê? Preciso do emprego. E com o que ganho não dá para ficar dez dias na praia. Então melhor fazer isso mesmo.  O patrão paga um dinheiro a mais por fora. E eu tenho um respiro nas contas.   24/02/2022. 

Sobre o inferno

Sexagenário, sobre uma colina, o fauno continua com suas diatribes. "Pois eu vos digo que o inferno, se existir, e se seguisse as leis desse universo, deve ser como um lugar onde as coisas estão sempre caindo no chão. E os infernizados precisarão ajuntar essas coisas." E seguia nesse discurso, quando um rolo que ele trazia consigo amarrado à cintura como um pergaminho antigo se soltou, e começou a rolar colina abaixo.  "Puta que pariu!" Gritou o fauno com mais força do que quando discursava. Começou a correr atrás do rolo que que descia. "Que infeeerrnoo!" 26/01/2022.

Doença Crônica

Maria sentia-se doente de tanto estar doente. 01/01/2022.

Reflexões de um velho ranzinza - Ano Novo - 2

Com 61 anos, e aguardando a aposentadoria, a vida não tem sido fácil. Mas às vezes eu rio com o que me falam. Meu sobrinho sempre fala nas redes sociais dele.  Eu até tenho, mas cheguei tarde nessas coisas. Meu computador é velho - quase nem ligo, e meu telefone não é muito potente. Quase não entro. Quase uso só o aplicativo de mensagem. Foi pelo aplicativo de mensagem que meu sobrinho falou que rede social tomava muito tempo.  Agora, no ano novo, ele reclamava que ficava vendo gente botar foto e vídeo de virada de ano e se sentia obrigado a dizer "feliz ano novo". Várias vezes. Para um monte de gente. Eu ri.  01/01/2022. 

Reflexões de um velho ranzinza - Ano Novo

Sou um velho com 61 anos, que aguarda ansiosamente a aposentadoria. São mais de 45 anos entre desemprego e empregos mal pagos. 45 anos para conseguir um apartamento apertado em um prédio ruim na periferia, uma lata velha do século passado como "carro", e perspectiva nenhuma de bem estar na tal aposentadoria.  Ano novo! O ano que farei 62 anos. E que faltarão três para a aposentadoria (provavelmente terei que seguir tentando bicos aqui e ali, mesmo aposentado). Nessa época, todo mundo faz desejos, tem esperança. Como diz aquele sobrinho, "projetos". Eu fiquei pensando que seria bom não ter que usar remédios. Eu uso remédio pra pressão, comprimidos pro diabetes. "Pré-diabetes" diz o pessoal do posto. Vez por outra, pomada pras micoses (vez por outra me dá frieira). Azulzinho pra me garantir.  E tem os dentes perdidos. Continuo com a maioria deles, mas também tenho umas pontes. Não tenho dinheiro para implantes.  Às vezes eu queria que Deus me livrasse de tud...