domingo, 4 de dezembro de 2016

Diário - leituras - A Alma Imoral


Diário - leituras - A Alma Imoral


"A Alma Imoral" é um livro sobre, bem, sobre a alma. Mas um livro que se afasta um pouco da noção estabelecida de alma do ocidente.
Nilton Bonder é um rabino e este texto vai buscar sua inspiração no Velho Testamento, isto é, no Gênesis, e em toda a tradição de sabedoria judaica através dos séculos.
Qual é a noção estabelecida de alma no ocidente? A alma como a parte imaterial dos seres humanos, o espírito, o que faz dos seres humanos diferentes dos demais animais que habitam o planeta. Uma parte imaterial, talvez mesmo imortal.
Esta noção vem em parte da filosofia grega, com a alma sendo a parte nobre do ser humano, a que veio do mundo ideal, segundo a concepção platônica, e que não está sujeita à corrupção do corpo. Esta ideia foi apropriada pelo Cristianismo, que reforçou a dicotomia entre o espírito bom, e o corpo mau, como fica exemplificado, por exemplo, na Epístola de Paulo aos Gálatas, "Mas, se sois guiados pelo Espírito, não estais debaixo da lei. Porque as obras da carne são manifestas, as quais são: adultério, fornicação, impureza, lascívia, Idolatria, feitiçaria, inimizades, porfias, emulações, iras, pelejas, dissensões, heresias, invejas, homicídios, bebedices, glutonarias, e coisas semelhantes a estas, acerca das quais vos declaro, como já antes vos disse, que os que cometem tais coisas não herdarão o reino de Deus. Mas o fruto do Espírito é: amor, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, temperança. Contra estas coisas não há lei." (Gálatas 5:18-23). Há que se dizer que "Espírito" aqui está relacionado também ao Espírito Santo, não apenas à alma dos cristãos da região da Galácia, mas é uma boa ilustração do que foi dito anteriormente. Há um corpo (a carne no texto) decadente, sujeito ao pecado, e um espírito que deve superar o pecado, mostrando bons frutos.
Nilton Bonder altera essa visão.
Ele equipara a alma à consciência no Gênesis. Ou seja, quando o homem e a mulher transgrediram o mandamento, e tomaram consciência que estavam nus diante de Deus, que a alma se manifestou como consciência. Talvez antes, o homem (e a mulher) não fossem muito diferentes dos demais animais do Éden, mesmo tendo sido criados à "imagem e semelhança de Deus" (a propósito, o autor não escreve "Deus" assim, mas da seguinte maneira: "D'us"). Para seguir o "crescei e multiplicai-vos" não era necessário muito raciocínio, apenas seguir o instinto.
E por aí o autor vai discutindo como a alma é a verdadeira imoral nessa relação, porque a alma é que vai ter o fardo de transgredir a moral estabelecida. Moral esta que, segundo o autor, é sempre a moral do corpo.
Por isso, a alma é imoral.


BONDER, Nilton. A Alma Imoral. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

02/01/2016.


quarta-feira, 30 de novembro de 2016

A Tragédia da Chapecoense


A Tragédia da Chapecoense


A notícia, triste, do dia foi a queda do avião que levava a equipe da Chapecoense a Medellin na Colômbia, para a decisão da Copa Sulamericana de Futebol. Pelo que vi, e se não estou enganado, havia 81 pessoas entre passageiros e tripulação, dos quais apenas 6 sobreviveram.

Mortes acidentais são traumáticas e  grandes acidentes aéreos costumam causar comoção. Neste caso, com uma equipe de futebol inteira, querida por muitos, a situação é de extrema perda. Houve diversas manifestações de pesar, e o Brasil está em luto nacional por três dias.

A Chapecoense é uma equipe pequena, mas simpática, que teve um rápido progresso no futebol brasileiro, tendo em dez anos, ido da série D à A do campeonato brasileiro de futebol. Disputaria sua primeira final internacional.

O noticiário dá conta que o adversário, o Atlético Nacional, de Medellin, teria sugerido que a equipe catarinense fosse sagrada campeã do torneio, diante da tragédia.

Terrível perda.


29/11/2016.

Em Câmera Lenta


Em Câmera Lenta


Domingo passado, 26/11/2016, vi muitas pessoas vestidas com camisetas do Internacional.
Foi a penúltima rodada do Campeonato Brasileiro de Futebol, e o Colorado teve o último jogo do ano em casa. Venceu o Cruzeiro por 1 a 0.

Tal ato me soou como um réquiem.

A situação da equipe no campeonato é bem complicada. Está em 17º lugar na classificação, na zona de rebaixamento para a segunda divisão do campeonato no próximo ano. Para não cair, precisa vencer a equipe do Fluminense, atual 12º colocado, no Rio de Janeiro; e torcer para que o Sport Recife não vença o Figueirense; ou o Vitória da Bahia seja derrotado, de preferência goleado, pelo Palmeiras. Tanto Sport, quanto Vitória jogam em casa.

A vitória sobre o Cruzeiro foi o jogo de despedida da torcida, e, me parece o último alento antes do final do campeonato, que deve ratificar a queda.

O Sport Club Internacional vai caindo em câmera lenta.


29/11/2016.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Diário - leituras - Maria Volta ao Bar


Diário - leituras - Maria Volta ao Bar


"Maria Volta ao Bar" é um livro com uma coleção de crônicas de diversos autores, reunidos por Rubem Penz, que inclusive participa da coletânea, com inspiração na vida e principalmente na obra de Antônio Maria, ou seja, Antonio Maria de Araújo Morais, jornalista, comentarista esportivo, poeta, compositor, e inclusive cronista, pernambucano, radicado no Rio de Janeiro, e falecido precocemente, aos 43 anos, em 15 de outubro de 1964. A efeméride de 50 anos do falecimento de Antonio Maria gerou o livro.

As crônicas sempre têm uma citação de Antonio Maria como epígrafe, e essa mesma epígrafe acaba por servir de mote à crônica. São crônicas boas, em geral, afinal já são uma seleção, mas para o meu gosto, algumas se destacam.

Por exemplo, "Desejos Mortais", em que o cronista Gerson Kauer questiona o Criador, a partir de uma citação em que Antonio Maria não quer encontrar um Criador punidor após a morte.

Ou "Cais do Porto", de Mariana Marimon, que fala da angústia que envolve os amantes, a respeito da duração do amor.

Ou "Nossa Majestade", de Rubem Penz, que questiona a suposta sabedoria que adviria da idade.

"Tempo, sempre o tempo!", de Zulmara Fortes, em que ela vai enumerando "as vezes em que envelheceu".

"O último bolero", de Luciana Farias, fala de um casal de amantes disfuncional, e mais não pode ser dito, para não quebrar o prazer de quem vier a ler a crônica.

"Anxelita", também de Gerson Kauer, sobre uma menina que segundo seu pai parecia um anjo, que o sotaque alemão e um escrivão de cartório de interior trocaram o "g" pelo "x", e talvez tenha mudado o caráter angelical da menina.

Sobre "Mulher bem-agradecida", de Dora Almeida, gostei bastante sobre uma mulher que acolhe como uma mãe, o marido que a acolheu num momento em que ela esteve desamparada. só achei que para a crônica ficar mais 1950, isto é, mais "Antonio Maria", a autora podia ter trocado a palavra "divórcio" pela palavra "desquite".

Enfim, 55 crônicas, de 11 autores. E parece que alcançaram o objetivo de emular Antônio Maria.


PENZ, Rubem (Org.). Maria Volta ao Bar. Porto Alegre: Buqui, 2014.


21/02/2016.

Abaixo a entrevista de Rubem Penz a Jô Soares, divulgando livro:

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Diário - leituras - Jango, A vida e a morte no exílio


Diário - leituras - Jango, A vida e a morte no exílio



"Jango, a vida e a morte no exílio" é um livro do jornalista Juremir Machado da Silva, que procura atualizar o golpe sofrido por João Goulart, em 1964, em vista de uma série de fatos: a proximidade da efeméride de 50 anos do golpe civil-militar; a instalação da Comissão da Verdade que deveria analisar os acontecimentos sobre o golpe, principalmente as violações de direitos humanos; e, por fim, a possibilidade de João Goulart ter morrido em função de um assassinato, em vez de um enfarto fulminante natural.

O livro mistura estilos, em um momento se parece com reportagem, em outro livro de história, em outro ainda uma crônica. Mais uma crônica que qualquer outro estilo.

O livro fez relativo sucesso na época de seu lançamento.

Peca por não ter uma referência bibliográfica (mesmo que o autor cite suas fontes ao longo do texto), e não possuir um sumário.


SILVA, Juremir Machado da. Jango, a vida e a morte no exílio. Porto Alegre: L & PM, 2013.



02/01/2016.


terça-feira, 22 de novembro de 2016

Diário - cinema - Doutor Estranho


Diário - cinema - Doutor Estranho


"Doutor Estranho" ("Doctor Strange", Estados Unidos, 2016) é o mais recente filme com personagens, super-heróis, da Marvel. Neste caso, o Dr. Stephen Strange (Benedict Cumberbatch) é um talentoso cirurgião, que tem suas mãos praticamente inutilizadas por conta de um acidente. Em conversas com um fisioterapeuta, ele fica sabendo sobre um homem paraplégico que recuperou os movimentos, em um caso que aparentemente a medicina não explica.

Strange procura e encontra esse homem, que lhe fala de uma espécie de mosteiro no Himalaia, onde um paraplégico literalmente voltou a andar, um lugar chamado Kamar-Taj. Strange se dirige ao lugar e lá encontra a "Anciã" (Tilda Swinton), que lhe mostrará uma realidade espiritual que Strange desconhece. Ele terá muito a aprender.  

Além disso, há o grupo dos "fanáticos" liderados por Kaecilius (Mads Mikkelsen), que rouba parte de um manual mágico secreto, e quer unir a Terra aos domínios de Dormammu.

Papel importante também tem Mordo (Chiwetel Ejiofor), um auxiliar da Anciã.

O filme tem muitas cenas espetaculares, e algumas literalmente estonteantes (para quem assistir em 3D).

E além das lutas e perseguições, tem uma série de referências místicas. Também é possível acompanhar por toda uma jornada, que o levará de um médico cético a um mago poderoso, essa jornada, com todos os seus desafios e conselhos há de ser apreciada por seguidores de muitas religiões, inclusive cristãos com uma visão menos estrita da fé (se pensarem alegoricamente).  

Durante os créditos há duas provocações ("teasers"). Suponho que uma se refira ao próximo episódio dos Vingadores, e a outra a uma continuação do próprio Doutor Estranho.

Um bom filme de super-herói, com o tempero da jornada do discípulo, e de um jargão que se aproxima da auto-ajuda.  


09/11/2016.

domingo, 20 de novembro de 2016

Patrícia

Patrícia


Patrícia - oito letras, substantivo feminino, singular.
A princípio pode ser descrito como o feminino de "patrício", que era como eram chamados os nobres da Roma Antiga. Também essa palavra acabou associada à pátria, de forma que patrício pode ser associado a patriota. E parece que em Portugal é associada a conterrâneo: quando um português fala de um seu concidadão, está a falar de um "patrício".
Patrícia também é o nome de uma boa cerveja uruguaia, fabricada pela Companhia Salus, que atualmente faz parte do império Ambev. Pode ser encontrada com relativa facilidade em Porto Alegre (embora eu acredite que em Montevidéu seja mais fácil encontrar uma cerveja simplesmente chamada de "Pilsen", de rótulo amarelo e vermelho, que também não é ruim).
Tendo eu nascido na segunda metade da década de 1960, e começado a estudar na década de 1970, não me lembro de meninas chamadas Patrícia em sala de aula. Era um tempo de Anas, Márcias, Lilianas, Lauras, as indefectíveis Marias, mas Patrícias me passaram batidas. Talvez tenha sido coincidência. Ou a minha memória está precária.
Nos anos 1990, o nome Patrícia passou a ser associado à futilidade ou à nobreza, dependendo de que lado você possa estar no espectro econômico, acredito que por conta do filme "As Patricinhas de Beverly Hills" ("Clueless", Estados Unidos, 1995 - que por aqui, poderia também ser traduzido como "Sem Noção", mas, enfim...). Esse filme foi estrelado por Alicia Silvertone, que também atuou como a Batgirl, no filme “Batman e Robin”, de Joel Schumacher, aquele com o George Clooney como Batman. Desde então, a "jeunesse dorée" brasileira é associada a Patricinhas e Mauricinhos.
Casualmente eu conheci duas Patrícias, nos últimos tempos, e ambas nascidas no início dos anos 1970. Isto é, acredito que seja por aí. De qualquer maneira, ambas aparentam serem mais jovens e terem mais jovialidade que alguém nascido pela metade dos anos 1970. Uma, uma terceirizada que trabalhou com fisioterapia na firma. A outra uma globetrotter, aspirante a escritora.
Sobre essa última, não posso dizer muita coisa. Apenas que é casada com o parente de um político que tentou ser prefeito de Porto Alegre, nos anos 1980, e me parece que tem bastante potencial para a coisa, ser escritora, e que me fez perder rebolado.
Foi assim: o assunto na mesa em que estava em torno de chopp e cerveja, por conta da crônica apresentada por um outro escritor, explanando sobre a origem das bolachas de chopp. Eu resolvi falar sobre o "Putsch da Cervejaria", a tentativa de golpe liderada por Hitler na Baviera em 1923, e comentei, por conta de um canal na internet, que a cervejaria ainda estava lá. Foi aí que ela interveio com palavras singelas: "sim, eu já estive lá". Pimba! Acabou toda a minha argumentação. E eu achando que estava pontificando sobre o assunto.  Foi assim que perdi o rebolado aquela noite.

04/03/2016.

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Diário - cinema - O Lar das Crianças Peculiares


Diário - cinema - O Lar das Crianças Peculiares


"O Lar das Crianças Peculiares" ("Miss Peregrine's Home for Peculiar Children", Estados Unidos, 2016) é um filme que mistura fantasia e um pouco de horror, para contar a história de um lar para crianças, como diz o título, peculiares. É baseado em um livro de Ransom Riggs, que recentemente foi lançado por aqui e ainda não tive oportunidade de ler. A direção é de Tim Burton.

Entre as crianças peculiares, uma é tão leve que precisa usar calçados como lastro para que não flutue, outra é muito forte, um menino é invisível, outra moça é capaz de gerar fogo com as mãos. Há outras, fiquemos com essas. A "Miss Peregrine", do título, a governanta desse peculiar orfanato é vivida por Eva Green, que entre outros dons, tem a capacidade de se transformar em um falcão peregrino. Ela produz a magia de fazer com que o orfanato viva todos os dias em um determinado dia de 1943.

E, voltando ao início do enredo: Jake (Asa Butterfield) é um jovem que tem dificuldades de integração com outros jovens, e que cresceu ouvindo histórias fantásticas de seu avô, Abe (Terence Stamp). Um dia o avô de Jack pede socorro, pois está acossado por "eles". Quando Jack o encontra, ele está deitado desacordado, num matagal nos fundos de casa. Quando Jack chega perto dele, ele diz que Jack precisa ir à ilha, da qual Abe falava nas histórias que contava. Surpreendentemente, os pais de Jack concordam com a viagem, para uma ilhota no litoral da Inglaterra, onde ficava o orfanato do qual o avô falava. Lá chegando, Jack encontra o prédio em ruínas, mas os peculiares dão um jeito de levarem-no de volta para 1943. Lá ele descobre que há alguns peculiares malignos, que querem a imortalidade, tomando os poderes dos guardiães, como é o caso de Miss Peregrine. Jack terá de pensar se se engaja nessa luta, ou não.

Claro que essas crianças e jovens peculiares não são tão peculiares assim. São situações parecidas, por exemplo, com os mutantes dos X-Men.
Ou a situação inicial de Jack é bem parecida com a de Harry Potter, para pensar em outro exemplo, e como este, Jack descobre todo um outro mundo, que ele pensava que eram histórias infantis que seu avô contava.

Dito tudo isso, o filme é divertido. Deve estar entre os melhores que tenho visto recentemente de Tim Burton.

Vamos aguardar se virão sequências.

03/11/2016.

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Estarei em Sessão de Autógrafos Nesta Segunda na Feira do Livro de Porto Alegre



Será nesta segunda, 07/11, no Memorial do Rio Grande do Sul, às 18h. 

Eu e outros oito cronistas estaremos autografando o volume sete, safra 2016, do livro "Santa Sede, Crônicas de Botequim", uma coleção de crônicas sobre diversos aspectos culturais, como música, dança e cinema. 

A Santa Sede é publicada desde 2010, como resultado da oficina de criação literária de crônicas, ministrada por Rubem Penz.

Todos estão convidados. Compareçam!

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Se passam os dias - 62ª Feira do Livro de Porto Alegre

Nesta sexta-feira começa a 62ª edição da Feira do Livro de Porto Alegre.
Espero ir a algumas das sessões de autógrafos este ano.
Também deverei estar autografando o sétimo volume da coletânea de crônicas "Santa Sede, Crônicas de Botequim. Será dia 7 de novembro, às 18 h, no Memorial do Rio Grande do Sul. Eu e outros oito cronista, mais o organizador, Rubem Penz.