quinta-feira, 21 de maio de 2020

A Quarentena Acabou


Ou não. Ou talvez sim.

O que quero dizer? Vamos começar pelo paradoxo do sucesso, ou "o sucesso que cultiva o fracasso", nas palavras do biólogo Átila Iamarino. 

Porto Alegre, e mesmo o Rio Grande do Sul, ao contrário de outras regiões do Brasil, têm mantido a epidemia sob relativo controle. Controle significa que nossas UTI's e emergências não estão superlotadas com doentes da covid-19. Infelizmente, sim, pessoas têm morrido, mas com o colapso do atendimento médico a situação seria muito pior, porque muito mais pessoas morreriam simplesmente porque não haveria condições de serem atendidas, como pode estar acontecendo no Amazonas, e aconteceu, certamente, em Guayaquil, Equador. 

As iniciativas precoces do governador Eduardo Leite, e do prefeito Nelson Marchezan, de suspender aulas, fechar comércio, e enviar o que fosse possível para tele-trabalho ("home office"), conseguiu fazer com que a taxa de contágio diminuísse muito. 

O sucesso dessa iniciativa faz parecer que não haja necessidade de quarentena, pois as taxas de contaminação em Porto Alegre, e no Rio Grande do Sul em geral, parecem estar sob controle. 

Ora, se não parece haver crise sanitária, para quê a quarentena? Eis o sucesso que cultiva o fracasso. 

A quarentena acabou porque estamos vivendo um, digamos, "novo normal". Esse novo normal consiste no uso generalizado de máscaras pela população (sim, há quem não use, mas esses já podem ser considerados rebeldes, transgressores, antissociais), no no distanciamento social, que nos municípios da Grande Porto Alegre já consiste em reabrir comércio, incluindo bares e restaurantes, com afastamento de mesas e redução do atendimento a 30 a 50 por cento da capacidade dos estabelecimentos, antes da pandemia. 

E creio que a situação só tende a relaxar mais. A menos, claro, que a peste resolva recrudescer. Neste caso será previsível que as restrições voltem a aumentar. 

E os idosos? Os portadores de comorbidades? Esses deverão continuar se resguardando, pois o coronavírus (Sars-Cov-2) continua por aí, à volta, o inimigo invisível a espreitar-nos todos. O risco vai aumentar porque o virus deve começar a circular e contaminar mais.

A ver como ficaremos, enquanto aguardamos a vacina ou o tratamento eficaz.

19/05/2020.

quarta-feira, 20 de maio de 2020

Diário da Peste (X) - Mortes, Muitas Mortes


Há seis anos, um título de entrada no meu blogue era "A morte se destaca nas manchetes dos portais". Na ocasião eu comentava as mortes do ator Philip Seymour Hoffmann, e do cineasta Eduardo Coutinho, em meio ao calor do verão de Porto Alegre na época (era fevereiro, e a temperatura tinha batido em 38ºC). E eu ficava chateado com essas mortes.

Nunca esperaria chegar onde estamos agora, que cruzamos a linha de dez mil brasileiros mortos pela covid-19, pelo novo coronavírus, na semana que recém terminou (em 09/05/2020). E infelizmente não é possivel dizer que o pior já passou. Temos uma capital colapsada, Manaus, e outras, Fortaleza, São Luis, Rio de Janeiro, no limite, à beira desse colapso. 

E temos outros brasileiros e brasileiras fazendo pouco caso da doença, querendo que tudo volte "ao normal", se expondo e expondo a outrem aos riscos da contaminação, dos sintomas, e, no limite, expondo à morte. 

Quando todas essas enfermidades passarão?

10/05/2020.

segunda-feira, 11 de maio de 2020

Diario da Peste (IX) - Perdemos Aldir Blanc


A minha primeira notificação veio pelo Willy. Seu amigo, colega e músico, Felipe Azevedo, aparecia em um vídeo em homenagem a Aldir Blanc, com uma performance de "Corsário". 

Depois o mesmo Willy enviou um vídeo do jornalista Rodrigo Vianna, comentando a obra de Aldir Blanc, durante sua internação. Ainda era um desejo de recuperação. 

Sim, infelizmente aquilo tudo só podia significar o que realmente significava, o grande letrista, poeta, Aldir Blanc havia sucumbido à covid-19, doença que o levara a ser internado há alguns dias. 

Então foi meu momento de pegar duas doses, e dizer ao Willy que estava bebendo, e fazendo de conta que estava com ele, e com outros, no boteco na esquina da José do Patrocínio com a República. 

Mas estamos assim, isolados. Não podemos nos encontrar, não podemos beber juntos. Alguns de nós, inclusive, e infelizmente, quase não podem prantear seus mortos. São velórios para poucas pessoas, feitos afobadamente, muitas vezes com caixões lacrados. 

À noite, um programa de rádio também homenageou Aldir: em uma longa gravação Elis Regina canta "Dois pra lá, dois pra cá". Aí, além da dor da perda de Blanc, somos assaltados pela saudade de Elis. 

Fazer o quê?

De quebra, no mesmo dia, somos informados da morte do ator Flavio Migliaccio. Como disse o Willy, lá se foi um personagem de nossa infância. O Patrão Velho está sendo cruel. Ou talvez mais cruéis estejam sendo os homens e mulheres que minimizam tudo isso. 

Foi dia 4 passado.

Que descansem em paz!

Nós prosseguimos, por enquanto!...

10/05/2020.

segunda-feira, 4 de maio de 2020

Diário da Peste (VIII) - 1º de maio em confinamento


As notícias da epidemia da covid-19 na China, se não me engano, surgiram lá por janeiro. Não era a primeira nova doença surgida por lá, provavelmente não será a última. Poucas tiveram repercussão por aqui, como aconteceu com a gripe H1N1. 

Mas chegou, como um tsunami. 

Na segunda semana de março de 2020, as aulas foram interrompidas no Rio Grande do Sul. No início da terceira semana, eu fui enviado para trabalhar em casa, em "home office". Acho que foi nessa mesma terceira semana que os shopping centers de Porto Alegre foram fechados. 

Dia 20 de março começou o outono no hemisfério sul (a primavera no hemisfério norte). 

E, de maneira geral, temos tido dias bons. Foram poucos dias com chuva. A maioria são dias de sol, com temperaturas agradáveis. Quando chega a fazer algum frio, não é nada desesperador. O astro rei sempre tem vindo aquecer nossos dias. 

Compreensível, embora não justificável, que pessoas estejam quebrando o isolamento para desfrutar do sol, das temperaturas amenas e do ar livre aos fins de semana, em reconhecidos locais de lazer da cidade, em especial a orla do Guaíba, na Ponta do Gasômetro. 

Hoje é primeiro de maio, dia do trabalho, dia do trabalhador. Na prática, muitos de nós, talvez a maioria continuamos fechados em nossas casas. Os trabalhadores de hospitais continuam arriscando suas vidas cuidando dos enfermos, os entregadores continuam levando comida a quem os chama. 

Lá fora, um sol dos mais agradáveis. Quisera eu, poder estar em um parque agora. 


01/05/2020.

domingo, 3 de maio de 2020

Diário da Peste (VII) - Happy Hour Virtual


Tudo começou com uma conversa no aplicativo de mensagens que a empresa usa. 

Comentávamos como parecia longe a data em que alguns de nós havíamos feito um "happy hour", e como não havia expectativa rápida para uma reabertura de bares, para que o próxima pudesse ocorrer.

Então uma das participantes da conversa disse, mais de uma vez, que o happy hour podia ser feito virtualmente. Parece que foi necessária a reafirmação da ideia para que a pudéssemos aceitar.

O chefe, então, ficou de organizar o tal happy hour virtual para o final daquela semana. Organizar seria convidar os que não participavam daquela conversa virtual, e acertar o horário - meia hora após o fim do expediente do trabalho em home office. 

No dia e hora marcados, sexta-feira, 24 de abril de 2020, por volta de seis da tarde, acho que fui o primeiro a logar no aplicativo para o ewncontro virtual. Ao meu lado, o copo com Jack Daniel's. 

O chefe foi o segundo a logar, com um copo de cerveja. A terceira colega apareceu na tela bebendo espumante. A quarta, estava com uma imagem vertical, usava o celular para o encontro, e bebia o que parecia ser leite com chocolate, mas de fato era licor de chocolate. 

Mais um apareceu, bebendo cerveja stout, e mais dois bebendo refrigerantes. Bah! 

O software só comportava dividir a tela em quatro, os demais tiveram que ir para um cantinho, superior à direita da tela. 

Apareceram inclusive duas furonas na reunião virtual, desconhecidas que receberam um convite com erro de digitação de emeio. 

O assunto? As banalidades de todo happy hour comum. A vida de quem não estava presente, a situação política do país (afff...), a pandemia, como cada um se virava durante o isolamento. 

Um happy hour virtual, a partir da casa de cada um, teve momentos de família, com o aparecimento de cônjuges, filhos(as), pets. 

Uns poucos colegas não quiseram participar. Nada demais, eles não iam aos happy hours nos bares. Em compensação, alguns outros que não costumavam comparecer nos bares, apareceram nas telas. 

Foi bom ver pessoas com quem a gente costumava compartilhar o ambiente de trabalho cinco dias por semana, mas que não víamos há mais de um mês. 

Happy hour virtual não é o mesmo que a, digamos, real, mas pode ser boa também. 


01/05/2020.

sexta-feira, 1 de maio de 2020

Poema para uma abelha à luz do sol



A abelhinha entrou pela janela

Veio inspecionar a minúscula quitinete

Cruzou o limiar

Banhando-se na luz do sol

Voou pelo quarto-sala

Supervisionou o banheiro


Em outros tempos eu teria pavor

Pânico do ferrão

Hoje apenas observo

Entre comovido e desconfiado

O sobrevoo do pequeno inseto


Na quarentena da pandemia

Do mesmo jeito que eu

A abelhinha é uma sobrevivente

Eu, da peste que cerca

Ela, do veneno que minha vizinha lança no ar

Para reservar a água doce 

que oferece aos pequenos beija-flores


23/04/2020.

sábado, 25 de abril de 2020

Diário da Peste (VI) - O Tédio e um Projeto Fotográfico


Passam os dias e continua o confinamento, embora haja muita gente que esteja descumprindo a quarentena, ainda acho que não é a maioria, haja visto a desaceleração do contágio em Porto Alegre.

Neste domingo, excepcionalmente eu acordei cedo, de fato, antes do sol nascer.

Sem a responsabilidade do teletrabalho, e enfurnado em casa, resolvi me lançar em um projeto fotográfico que muita gente já deve ter pensado e executado. Fotografei a rua em frente, diversas vezes ao longo do dia. O resultado pode ser visto abaixo, com a ajuda do criador de animações do Google Photos. 

Há pequenas alterações de ângulo porque eu peguei a câmera nas mãos, diversas vezes ao longo do dia. 

Talvez em um próximo projeto, eu simplesmente posicione a câmera em cima de um tripé e vá fotografando ao longo do dia. 

Seguimos em frente. Por enquanto.





19/04/2020.

quinta-feira, 23 de abril de 2020

Reação em cadeia


É noite. Chegada da visita semanal ao supermercado. 

Colocar as compras sobre a bancada da cozinha (a cozinha é bem na entrada do apê).

Tirar os tênis e largar na entrada. Tirar e pendurar o casaco (dia fresco de outono, quem quer pegar resfriado?). Tirar a camiseta, direto para o cesto de roupa suja. Idem para a calça. 

Nesse meio tempo, os tomates recem chegados deixaram seu equilíbrio precário e rolaram pela bancada. Um copo próximo é lançado ao chão.

Praguejo, coloco a calça do abrigo, outra camiseta, calço os chinelos e começo a juntar os cacos, por onde vejo. 
Muitos cacos, que vou colocando em um saco plástico, que por sua vez é colocado em outro saco, que irá para um terceiro. Coloco os sacos junto à porta, para ser levado à lixeira no momento oportuno. Felizmente o condomínio faz coleta seletiva e há um conteiner especial para vidro. 

Volto a cozinha, olho para um outro lado, e lá estão mais cacos de vidro. Recomeço o trabalho de coleta de cacos, e ensacamento. 

Depois varro a cozinha, por conta dos resíduos de vidro invisíveis aos olhos, e até incapazes de sensibilizar o tato. Claro que vem pó junto!
Tudo encaminhado? Nem tanto!

Na manhã seguinte, após os trâmites do café, coloco as roupas sujas na máquina de lavar. 

Quando olho para baixo, o que vejo? Mais cacos de vidro! (A área de serviço é junto à cozinha). Não muitos há que se dizer. Novamente junto os cacos, novamento os ensaco... 

Concomitantemente ao ajuntamento dos cacos, percebo, debaixo da lavadora, uma maçã. Deve ter sido outra vítima da reação em cadeia, empurrada pelos tomates, juntamente com o copo. 
Tento pegá-la, mas ela escorrega mais para trás. Uso uma vara para tentar puxá-la. Nada. 

Me ajoelho para tentar enxergá-la, apóio a mão no chão, e adivinhem? Minha mão pousa sobre mais um caco não percebido. 

Praguejo. 

O corte começa a sangrar. E sangra. Coloco a mão sob água corrente na pia. Limpa, mas tão logo a mão é tirada de sob a água, o sangue volta. Preciso pegar um algodão e embebê-lo em álcool, para pressionar o corte. 

Depois de longos minutos, o corte para de sangrar. 

Volto à área de serviço, e levanto a máquina, que naquele momento seguia seu ciclo de lavagem. Não consigo enxergar a maçã. A máquina começa a vazar água. Aff!...

Tento me concentrar no trabalho. O jeito será aguardar a máquina terminar seu ciclo de lavagem. 

Quando isso finalmente acontece, volto para pegar a maçã, antes mesmo de estender as roupas (não muita roupa, a paranoia com o vírus não permite muita acumulação). 

Levanto por um lado, nada de maçã. Puxo a máquina para a frente, empurro a parte de cima para trás. Finalmente a vejo, lá atrás. Tenho que usar a mesma vara para empurrá-la para fora da área da máquina de lavar. 

Finalmente a alcanço. A lanço na pia. Minha vontade é de bater, torturar a maçã. Como se ela pudesse sentir dor!

Enfim, posso me voltar a outras atividades. 

Nesses tempos de pandemia, um simples regresso do supermercado pode se tornar uma epopeia.

17/04/2020.

quarta-feira, 22 de abril de 2020

Necessidade


Estamos na quarentena, mas estou trabalhando. Preciso trabalhar. 

Não é fácil para mim, que já tenho quase sessenta, encontrar emprego. Então, como tenho a oportunidade, estou me virando.

Pra quem não foi dispensado, como eu, até que não está ruim. Mesmo sem regras rígidas de isolamento, o trânsito está muito melhor. Tem carro na rua, mas muito menos.

Eu trabalho numa empresa de logística. Me pergunto até se o trabalho não aumentou. Com tanta gente encerrada em casa, as empresas só podem vender por telefone e pela internet. E nós entregamos. 

É um trabalho pesado. Manipula pacotes, seleciona pacotes, carrega caixas que chegaram, leva caixas com pacotes para serem entregues aos compradores. Tudo precisa ser entregue certinho e não pode demorar.

No fim de cada dia estou exausta e com dores pelo corpo. O analgésico é balinha pra mim. Nesse caso é que nem a piada com a imagem de um homem numa banheira com gelo, e um texto escrito, "o que eu penso, quando o médico diz para colocar gelo onde dói", falando das dores no corpo após os quarenta. Já disse, estou quase com sessenta.

Tenho trabalhado todos os dias, seis dias por semana, inclusive fazendo hora extra.

Faz mais ou menos uma semana, tenho tido uma tosse seca, e não tenho sentido o cheiro das coisas. De ontem para hoje, os olhos parecem mais secos, aquela coisa de areia nos olhos. Comentei com uma amiga, que ficou meio assustada. Me perguntou se eu sentia dores no corpo, febre. Eu respondi que não tinha febre, e dor no corpo é todo dia, e eu resolvo com analgésico. Ela me disse que eu devia ir no médico, mas eu não vejo necessidade.

Comentei com o meu coordenador e o gerente, sobre essa tosse e a preocupação da minha amiga. Os dois me disseram que não devia ser nada, mas que se eu quisesse faltar, precisava ir num médico e trazer atestado.

Deixei assim mesmo. 

Sigo trabalhando.


09/04/2020.