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Ainda o Salgado Filho e a inundação

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Eu moro na Vila Ipiranga, na zona norte de Porto Alegre. Daqui é muito fácil avistar os aviões decolando e se preparando para pousar no Aeroporto Salgado Filho. Também é relativamente curto o trajeto daqui até o aeródromo, pouco mais de seis quilômetros. Quinze minutos de carro. Ou uma hora e meia a pé, para quem estiver disposto. Se fosse possível atalhar pelo pátio do Salgado Filho a pé, essa distância cairia para uns quatro quilômetros até o terminal, uma horinha de caminhada.  Desde que passei a morar na Vila Ipiranga eu me acostumei com o ruído dos aviões, e também a avistá-los quando caminho pelo bairro. Eram parte da paisagem, por assim dizer.  Ao longo da vida tenho tido fases com o Salgado Filho. Basicamente duas. Ou três. Explico. Duas: primeiro a fase que eu via o aeroporto, o visitava, e não viajava de avião. Houve a época do terminal antigo, que tornava o aeródromo um campo de pouso, quando passageiros que embarcavam ou chegavam tinham que caminhar pela pista. Dep...

Depois da catástrofe de maio de 2024 – III

Em meados dos anos 1970 houve um aumento, ou um ressurgimento, dos chamados filmes catástrofe. Lembro de títulos como Inferno da Torre, Terremoto ou Tubarão que devem ter sido sucessos de bilheteria daquela época. Falo em aumento porque a indústria cinematográfica sempre se alimentou de tragédias. O naufrágio do Titanic já foi recriado diversas vezes no cinema; a primeira pouco tempo após o famoso navio ir a pique, no início do século XX. Citei três títulos que fizeram sucesso, e os quais não vi na época, porque era criança, e não me permitiriam entrar nas salas de exibição. Fui ver Tubarão muito depois, já não me lembro em qual circunstância.  Os filmes catástrofe seguiram, seguem, sendo produzidos. Na década seguinte, dos anos 1980, assisti no cinema ao filme O Dia Seguinte (“The Day After”, Estados Unidos, 1983). Naqueles dias de acirramento da chamada Guerra Fria, sob a presidência de Ronald Reagan, o filme imaginava como aconteceria um conflito direto entre os Estados Unidos e...

Depois da catástrofe de maio de 2024 – II

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Neste início de junho, as chuvas e o frio de maio parece que ficaram para trás.  São dias de certo calor, que pode haver gente que chame de veranico de junho. Me parece mais uma primaverica, pois, se esquenta ao meio-dia, à noite a temperatura cai.  É tempo de limpeza, reconstrução e reflexão.  Voltou ao vocabulário da cidade o “abobado da enchente”. Recebi duas explicações para essa expressão. A primeira que ouvi foi que, na enchente de 1941, muitas pessoas que tiveram contato com as águas acabaram se contaminando com doenças que geraram problemas neurológicos.  A outra tese, que me parece mais simples, é mais palatável para mim. Abobados da enchente seriam as pessoas que viveram a chegada das águas invadindo tudo, e ficaram chocadas com as perdas emocionais e patrimoniais. Muitas vezes, perdas de toda uma vida.  Quando tenho caminhado ou passado de ônibus pelos lugares que foram inundados e que agora secaram, eu me sinto esse abobado da enchente, o que se choc...