João Antônio Garcia, JAG


Há momentos em que a vida vem lembrar da outra vida que você já teve. Ou, pelo menos, eu fico com essa impressão.

Semana passada o amigo Cláudio me passou a informação de que o amigo João Antônio havia sofrido um AVC e estava em condições muito difíceis, em uma UTI, em um hospital em Canoas.

João Antônio…

Conheci o João Antônio na minha adolescência, nos anos 1980. Mais exatamente, devo tê-lo conhecido em 1982 ou 1983. A adolescência costuma ser associada à rebeldia, mas, veja só, conheci João em meio a uma busca através da religião. Religiões institucionalizadas costumam ser coisas extremamente hierárquicas, por vezes, reacionárias; por outro lado, também costumam ser meios de submissão. Bem, a busca começou primeiro como católico. Depois em busca da “verdadeira” religião (desde que fosse cristã). Por fim, uma passagem à fé evangélica.

Outros amigos estiveram envolvidos nisso. Além do Claudio, já citado, havia o Paulo, o Marco, o Carlos. Uma turma que vivia na Vila Cefer. E que gostava de conversar à noite em frente à casa do Claudio, que ficava ao lado de uma área de retorno e estacionamento na Vila Cefer 1, mas que chamávamos de esquina. Tínhamos ali um Clube da Esquina, que inclusive teve camisetas, tipo um uniforme. Repito, isso lá por 1983.

Feita a passagem do catolicismo ao evangelicalismo, que fizemos? Tentamos fundar nossa própria igreja. Daí um dos episódios mais anedóticos de minha convivência com o João. Aconteceu quando ele transcreveu para um cartaz a letra da canção Deus Companheiro, uma canção evangélica, composta por Asaph Borba. O refrão da música diz “daí em diante gozar a amizade de Deus”. João transcreveu “da Índia há de gozar a amizade de Deus”. Sim não faz muito sentido. Contudo, o intérprete da versão que escutávamos em disco também não ajudava muito. A pronúncia podia confundir mesmo. Gozar da amizade de Deus a partir da Índia. Enfim. Além desse, João criou mais   alguns cartazes com letras de canções evangélicas que cantávamos em nossos cultos. Assinava JAG. João Antônio Garcia.

Como bons jovens, acho que foi a nossa forma de querer conquistar o mundo. Claro que em nossas cabeças fazíamos aquilo para Jesus.

Acho que valeu o esforço, mas não deu certo. Nosso projeto acabou e terminamos por nos filiar a igrejas estabelecidas.

João chegou a ser meu padrinho de casamento, junto com a Claudia, sua então esposa.

E então vieram os anos 1990 e nossas vidas tomaram rumos diferentes. E assim devo ter passado mais de trinta anos sem notícias do João. Até a semana passada.

Uns dois dias após a notícia da agonia gerada pelo AVC, veio a notícia do falecimento.

Um estranhamento, um sentimento de perda.

Na minha cabeça ficou tocando a música Clube da Esquina nº 2, em versão instrumental, do jeito que está no álbum Clube da Esquina, de Milton Nascimento, Lô Borges e outros, de 1972. Um réquiem para a alma de João.

Vai em paz, João Antônio. Guardarei comigo aqueles dias que vivemos naqueles anos 1980. 


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Imagem do João Antônio que ilustrou o convite para os ritos de despedida. 

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Clube da Esquina nº 2

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13, 14/07/2026. 

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