Postagens

Alívio

Sexta-feira, final de tarde. Ainda lendo o jornal. Também, só eu mesma para assinar jornal do centro do país em papel em tempos de comunicações instantâneas.  Dinossaura. Ou jacaroa, como está em moda.  Leio o texto de uma colunista falando de sua ancestralidade judaica, e de como só com os filhos adultos, a mãe lhes revelou que tinha sido refugiada do nazismo.  Em outra coluna, uma escritora, que costuma criar hipérboles a partir de suas vivências, relata seus dias de doente de covid-19. Muito sofrimento. São mais de 400 mil mortos, quando leio, e contando.  E um artigo de defensoras públicas lembrando os quinze anos do massacre de maio de 2006 em São Paulo. Primeiro uma centena de policiais e agentes penitenciários assasinados, supostamente a mando do PCC, depois a reação e 400 executados em uma semana, provavelmente por policiais organizados em esquadrões da morte.  Afff... Uma mensagem no celular.  Minha neta me avisa que vem matar a saudade de mim! Oás...

Diário da Peste (XXIII) - Sabor Especial, Fruta da Estação

Semana passada entraram as primeiras bergamotas desta estação aqui em casa.  Cá estamos em quinzembro de 2020 (ou maio de 2021, se você quiser). Estou há quatorze meses em home office. Pois é, presidente, sou um dos seus idiotas.  É bom ter as bergamotas em casa novamente.  No outono e no inverno passado elas foram um alimento fundamental. Comi bastante. Aliás, fazia tempo que eu não comia tanta bergamota. Não pesei. Mas foi bastante. Mais do que eu estava acostumado em invernos de outrora. Vitamina C no organismo.  Faz umas duas semanas tivemos um período de longas amplitudes térmicas. Os dias de outono começavam a 7 ou 8ºC, iam a 21 ou 22ºC na máxima do dia, e retornavam ao frio ao anoitecer.  Agora, uma frente fria trouxe vento e baixou geral as temperaturas.  Hora de trocar a cerveja pelo vinho; o gin tônica pelo rabo de galo . Hora de beber chá; ou de consumir o refrigerante sob temperatura natural, sem gelar.  Há sol. Com a persiana aberta e o v...

Diário – Leituras – Prende o Velhinho e outras trapaças

  Se trata de um livro de crônicas e memórias de Jorge Luiz Bledow. São 23 histórias. Crônicas que se lê com a leveza possível nesses dias de peste.  A propósito algumas das narrativas são justamente a respeito da pandemia em que estamos envolvidos desde março de 2020.  O livro abre com uma narrativa a respeito da nossa dificuldade geral de lidar com baratas. Sim o inseto.  Passa pelo cotidiano contaminado (opa!) pela covid-19, que restringe trajetos, paralisa o prazer do esporte, e torna uma ida ao supermercado uma quase operação de guerra, com necessidade de planejamento e cronometragem.  Passa, além disso, pelas lembranças do autor, como na crônica “O Tempo Levou”, com a qual quem é jovem há bastante tempo há de se identificar, e relembrar a Porto Alegre desse passado recente distante.  Termina com “Viagem Fantástica em 1975”. Fantástica mesmo. A incrível história de uma viagem de formatura de um grupo de estudantes que sai do interior de Palmeira das Mi...

Diário - filmes - O Primeiro Homem

Depois de muito tempo voltei a assistir um filme. Fazia muito tempo que eu não parava para ver um longa metragem, pois tenho estado cheio de telas eletrônicas. Fiquei concentrado em leituras e vídeos de cerca de quinze minutos. Mas após muita insistência de meu filho me rendi a ver "O Primeiro Homem" ("First Man", Estados Unidos, 2018), uma recriação da vida de Neil Armstrong, que foi o primeiro homem a pisar na superfície lunar. Ryan Gosling interpreta Armstrong.  Para completar a piada que ninguém presta atenção ao segundo, o segundo também está lá, é Buzz Aldrin, interpretado por Corey Stoll. A propósito parece que o nome do brinquedo Buzz Lightyear recebeu esse nome em homenagem ao segundo homem na Lua.  Como um bom filme estadunidense, é um filme de superação, mas também um filme sobre perdas, a começar pela filhinha de Neil logo nos minutos iniciais do filme.  Um bom filme. Um drama sobre um homem superando as suas perdas e as aparentes limitações.  17/05/2021...

Méqui

Quase duas da tarde e eu na maior fome.  Faz tempo que saí de casa, e não dei sorte na minha correria.  E esse bairro aqui na zona norte não dá sorte. Sempre tem muita gente em volta. Não consigo dá minhas volta em paz.  Agora tá o playboy ali estacionando a Tucson grandona. E ele tá com um saquinho de méqui.  Hummm... E agora não tem ninguém aqui na volta. Na boa, é só chegar discreto.  "Aí, playboy, perdeu. Passa o saco!" "Ah, cara, tu tá brincadeira! Tu quer me roubar o meu almoço?" "Isso aí! Passa o lanche no pacote." "Ah, nem vem! Isso aí é pegadinha! Tu só tá com o dedo aí no teu bolso." Porra! O cara tentou me acertar um soco?  "Eu tava de boa, cara! Tô com fome. Só queria o lanche." ... "Cara, tu me deu um tiro? Socorro! Socorro!" "Sai fora, playboy! Dá o lanche aqui. Já que tu quis me azará, já vou levar tua carteira, celular e o carro." Carro automático. Mais fácil.  Otário. E eu só queria o lanche! Pra que...

Noite passada sonhei contigo

Esta noite (1 para 2 de maio de 2021), sonhei com minha irmã. Parecia que estávamos em uma praia. Na areia da praia. Conversei não sei o quê com ela. Também tive a sensação da presença de nossa mãe no sonho.  A figura de minha irmã era muito mais nítida que a de minha mãe. Teria isso a ver com minha irmã ter se ido em 2018 e minha mãe em 1995? Mistérios da mente.  Acordei sobressaltado, pensando ver alguma coisa a minha frente, mas era só a estante com seus livros. Me dei conta então que a minha irmã, tão presente alguns segundos atrás, era apenas fruto de um sonho.  É um dado trágico de nossa existência o fato de estarmos fadados a ver partirem nossos entes queridos. É um dado natural, mas saber disso não torna a dor e a saudade menores (e, sim, se algo quebra a ordem natural e um filho parte antes de um pai a tragédia é ainda maior).  O sonho reativou saudades, trouxe à tona a dor.  Provavelmente movido pelo meu inconsciente, coloquei a tocar Anoche Soñé Conti...

Saúde!

  No tédio de uma tarde de sábado, os dois amigos cinquentões se encontraram novamente como costumavam fazer havia bastante tempo, e continuavam fazendo apesar da peste.  Logo que Erasmo chegou ao apartamento do Lino, perguntou, “E aí? Qual a cerveja que tu comprou?” “Ih, rapaz! Não comprei cerveja.” “E o que a gente vai beber?” “Tem esse pouquinho de rum aqui. E tem uma garrafa de cachaça.” "Bah!" "Vamos ver. Vamos ver quem aguenta melhor. Eu vou servir o rum em copo de martelinho. Vamos beber de um tiro só." "Tu não vai dar nem para a saída." E assim Lino serviu dois martelinhos de rum.  Os dois emborcaram os copos de uma vez. Ambos fizeram a careta característica que engoliram uma bebida que desceu queimando pela garganta.  "Essa não deu nem para começar.", falou Erasmo.  "É. Não deu mesmo.", concordou Lino e serviu novamente os copos. A garrafa de rum se esgotou.  De novo viraram a bebida em um único tiro. Novos rostos de garganta q...