As extremosas no outono de Porto Alegre em 2026


Dizem que Rubem Braga falava tanto em sabiás em suas crônicas que era comum que amigos lhe presenteassem com exemplares do bicho. Parece que naquele tempo não era de mau tom dar passarinhos enjaulados de presente. E parece que houve um momento em que Rubem Braga teve tantos sabiás em seu apartamento em Ipanema que ficava aborrecido com a algazarra, digo, o canto dos bichos engaiolados ao seu redor. Não sei se a história é verdadeira mas é verossímil. 

As três ou quatro pessoas que acompanham os meus textos sabem que vez por outra eu comento sobre as extremosas (Lagerstroemia indica), essa arvorezinha que está espalhada por boa parte das ruas de Porto Alegre. Ou, pelo menos, pelas ruas por onde caminho, aqui na zona norte da cidade. Aquela arvorezinha não muito alta – eu diria que, em média, costuma ter uns dois metros e meio de altura –, e que produz flores cor de rosa no verão. 

Para dar razão aos textos que escrevíamos no ensino primário – chamávamos esses textos de composição naqueles anos 1970 – agora que é outono, as extremosas estão perdendo suas folhas. Não sem antes essas folhas adquirirem colorações que vão do amarelo ao vermelho. Posso relembrar dos textos nos meus livros escolares da segunda ou da terceira série declarando “no outono as árvores perdem suas folhas”. É como me recordo disso. E aí estão as extremosas para me recordar. E para confirmar. 

Em breve as extremosas entrarão em hibernação. Parecerão árvores mortas. Em muitas delas ficará evidente a infestação por erva de passarinho, um parasita. 

Mas que nada. Reforçando a descrição dos meus livros escolares, na primavera as extremosas deverão recuperar sua folhagem, e no verão hão de florescer. E veremos novamente suas flores cor de rosa. 

Enquanto isso vamos em direção ao inverno, com dias cada vez mais curtos. 

Enquanto isso seguem as guerras. No leste da Europa. Na sudoeste da Ásia. No nordeste da África. Mudam as estações, segue a brutalidade de parte da raça humana. 

Falo tanto em extremosas e ninguém me dá mudas da árvore para plantar. Ainda bem. Eu não saberia onde plantar nem como cuidar. Mas as extremosas que aí estão, aí estão. Quem passar por elas, pode observá-las. Talvez admirá-las.

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31/05/2026, 01/06/2026.

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